Telemóveis na escola: autoridade pedagógica não se constrói com confisco
Telemóveis na escola: autoridade pedagógica não se constrói com confisco
O debate sobre o uso de telemóveis nas escolas tem sido conduzido, demasiadas vezes, num tom emocional, como se estivéssemos perante uma escolha entre permissividade irresponsável e proibição salvadora. Mas a maturidade das instituições mede-se precisamente pela capacidade de encontrar soluções equilibradas. E neste caso, a solução é simples: telemóveis desligados durante as aulas; fora desse tempo, a responsabilidade pertence aos encarregados de educação.
A sala de aula é um espaço de aprendizagem. É o território da autoridade pedagógica do professor. Não pode haver ambiguidades: durante o tempo letivo, o foco deve ser total. O telemóvel desligado elimina distrações, notificações, consultas indevidas e gravações abusivas. A regra é clara, objetiva, fácil de explicar e perfeitamente fiscalizável. Protege o processo educativo sem recorrer a medidas excessivas.
Mas importa também dizer com clareza aquilo que muitos evitam: retirar os telemóveis à entrada da sala não é uma solução pedagógica — é uma medida de substituição de autoridade.
Alguns defendem que os equipamentos sejam recolhidos antes do início da aula. Discordo em absoluto. Essa medida tem, na prática, um único efeito: eliminar o teste da regra. Se o telemóvel não está com o aluno, não se avalia a sua capacidade de cumprir uma norma. E se o professor não precisa de exigir o cumprimento da regra, também não exerce plenamente a sua autoridade.
A autoridade não se afirma pela eliminação da tentação, mas pela capacidade de estabelecer limites claros e fazer com que sejam respeitados. Se um aluno é capaz de ter o telemóvel consigo, desligado, e não o utilizar, está a cumprir uma regra. Está a aprender autocontrolo. Está a internalizar disciplina. Isso é educação.
Retirar o objeto para evitar o incumprimento pode resolver o problema imediato, mas não educa para a responsabilidade. É uma solução administrativa para uma questão que é, essencialmente, formativa.
Além disso, importa não confundir firmeza com fragilidade. Um professor que estabelece a regra “telemóveis desligados” e a faz cumprir não é fragilizado pela existência do dispositivo; pelo contrário, reforça a sua posição. A sua autoridade não depende da ausência do telemóvel, mas da clareza da norma e da consequência do incumprimento.
Se começarmos a remover todos os elementos que potencialmente desafiam a disciplina, estaremos a ensinar obediência circunstancial — não responsabilidade autónoma.
Também do ponto de vista institucional, a proporcionalidade é essencial. O objetivo é garantir foco pedagógico. A exigência de telemóveis desligados durante as aulas é adequada, suficiente e equilibrada. Ir além disso — proibindo, confiscando ou eliminando completamente o dispositivo durante todo o período escolar — invade a esfera familiar e substitui-se desnecessariamente ao papel dos encarregados de educação.
A escola deve ser firme onde é sua competência: no ensino, na disciplina em contexto letivo, na exigência de regras claras. Mas deve também reconhecer os seus limites. A educação integral é uma responsabilidade partilhada entre escola e família — não um exercício de tutela unilateral.
Por isso, a posição mais sólida não é a do radicalismo, mas a da responsabilidade distribuída:
Durante as aulas, telemóveis desligados.
Fora delas, a responsabilidade pertence às famílias.
Tudo o resto é excesso — ou desconfiança na própria capacidade de educar