Artigo de Opinião

14 de fevereiro: mais cardos do que rosas.

15.02.202619:20
dia dos namorados 2026

O denominado Dia de S. Valentim ou “Dia dos Namorados” tem, como em outros contextos semelhantes, por exemplo, o Natal, a Páscoa ou o importado (e descabido) Halloween, uma significativa e excessiva componente comercial e consumista completamente desproporcional e inusitada.
A banalização e o carácter meramente pontual e calendarizado de um dia que representaria a afetividade e as relações amorosas, teimam em esconder e a silenciar uma realidade que, para muitas narrativas, se torna incómoda e inquietante: a normalização de determinados comportamentos criminais e moral e socialmente reprováveis.

Ainda no final de janeiro (no dia 30), em Aveiro, no âmbito do III Seminário da Rede Especialista em Intervenção com Vítimas de Violência Doméstica do Concelho de Aveiro (“Proteção de Vítimas de Violência Doméstica: Novos Desafios”) alguns dos especialistas e oradores presentes referiram o crescimento de comportamentos de violência e ódio entre os mais jovens, por exemplo em contexto escolar.
Ora, os dados mais recentes (Ministério da Educação, Justiça, PSP, GNR, APAV, Ordem dos Advogados, UTAD, programa PREVINT) revelam, por exemplo no estudo da UTAD (num universo perto de 8.000 alunos, entre os 11 e os 18 anos) que 68 % dos jovens relataram ter sido vítimas de comportamentos agressivos no contexto escolar (violência psicológica, social e física); 92 % das vitimações foram de natureza psicológica; 62 % relataram formas de controlo e perseguição (stalking); 58 % relataram casos de cyberbullying ou partilha de imagens íntimas sem consentimento e 64 % admitiram ter praticado atos violentos com colegas.
Além disso, a APAV, em 2024, registou cerca de 12 mil casos de violência doméstica, aos quais podemos acrescentar as mais de 30 mil ocorrências registadas pela PSP e pela GNR em todo o país, nesse mesmo ano. Mas no primeiro semestre de 2025 (metade de um ano), a APAV já tinha prestado apoio a 10.500 vítima de violência doméstica. E importa também recordar que, em 2024, o país assinalou 22 homicídios por violência doméstica. Ou, ainda, em relação aos dados de 2024, 26,5% dos incidentes de violência doméstica envolveram cônjuges ou parceiros íntimos, e 5,1% envolveram namorados/as (casais sem casamento).

Mas, concretamente em relação ao “Dia dos Namorados”, a realidade que se pretende esconder (ou, mesmo, silenciar) sobre a Violência no Namoro, é preocupante. Em 2024, a PSP recebeu 1.412 queixas de violência no namoro (superior a 2023) e a APAV apoiou 1.023 vítimas de violência no namoro, das quais 322 vítimas pediram ajuda durante a relação e 691 vítimas procuraram apoio depois do fim da relação (a maioria das vítimas são mulheres, cerca de 87%, sobretudo com idades entre 18 e 44 anos).
Por outro lado (demasiado escuro e aterrador), um estudo apresentado esta sexta-feira (fonte, Diário de Notícias) pela UMAR (União de Mulheres Alternativa e Resposta), mostrou que 66,7% dos jovens entrevistados experienciaram, pelo menos, um indicador de vitimização no namoro, como controlo, violência psicológica ou perseguição. Além disso, os dados revelam que 68,2% dos estudantes não considera certos comportamentos abusivos (controlo ou perseguição, por exemplo) como violência no namoro.

O verdadeiro Dia de S. Valentim / Dia dos Namorados ainda está para chegar e ser celebrado. Quando os chocolates, os coraçõezinhos, as flores e os ursinhos de peluche deixarem de ser ‘cardos’ e forem transformados, verdadeiramente, em rosas sem espinhos.