Sobre as Grandes Opções do Plano de Ílhavo: responsabilidade, futuro e sentido político
As Grandes Opções do Plano (GOP) do Executivo de Ílhavo para 2026–2029 chegaram à Assembleia Municipal, como é próprio do funcionamento democrático e como sempre deve acontecer. Votos a favor, abstenções, votos contra — tudo aparentemente normal. Mas, como tantas vezes sucede quando se olha com atenção, essa aparente normalidade esconde nuances políticas profundas que merecem ser analisadas com cuidado.
Comecemos pelo essencial: o que significa, de facto, abster-se. A abstenção não é um voto vazio, nem ausência de pensamento, nem fuga à responsabilidade. Pelo contrário, é muitas vezes a forma mais ponderada de assumir uma posição política. Significa: não discordo do essencial, mas também não subscrevo plenamente. É prudência, discernimento e reconhecimento dos limites do documento em apreciação.
Num GOP, com baixo grau de detalhe operacional, sem cronogramas rígidos nem ações irreversíveis, a abstenção pode ser uma forma cordata de concordar, mantendo reservas. É dizer: não há razões para bloquear, mas também não há condições políticas para um apoio entusiástico. Trata-se de um gesto legítimo e politicamente compreensível.
É neste contexto que o PS optou pela abstenção na votação das GOP e implicitamente do Orçamento para 2026. O partido sublinhou que o documento apresentado não é o orçamento do PS, por não incorporar as propostas concretas, fundamentadas e construtivas que apresentou no âmbito da consulta prévia, ao abrigo do Estatuto do Direito de Oposição.
Ainda assim, a abstenção do PS não se explica apenas pela ausência das suas ideias no documento. Há nela um tactismo político claro: a vontade de não ficar, no futuro, associado à sustentação política de um Executivo PSD-CDS, validando formalmente um documento que não é seu, apesar de não conter razões objetivas que justifiquem o seu chumbo. Trata-se menos de uma discordância substantiva e mais de uma precaução política — uma abstenção preventiva, consciente de que o essencial do GOP, em particular no que respeita a 2026, não resulta de uma opção discricionária do Executivo, mas de uma necessidade concreta de garantir fundos, cumprir compromissos assumidos e executar obras estruturantes que, de outro modo, se perderiam.
O programa da AD estrutura-se em pilares claros — valorização da educação e formação, fortalecimento das comunidades locais e da juventude, sustentabilidade ambiental e mobilidade, dinamização económica e cultural, e qualidade de vida centrada nas pessoas — com metas definidas e um foco anual temático que orienta a execução das políticas públicas. Reconhecer esta arquitetura estratégica reforça a ideia de que, do ponto de vista do interesse do concelho, um voto favorável seria politicamente coerente, ainda que potencialmente crítico e arriscado numa politica tática da qual não sou adepto.
Outra coisa, bem diferente, é votar contra.
Votar contra um GOP nestas circunstâncias não é um gesto simbólico nem retórico. É uma decisão com consequências reais. O chumbo das GOP conduz o município a um regime de governação por duodécimos, com bloqueio de novos projetos, atraso de obras, impossibilidade de lançar concursos e risco efetivo de perda de financiamentos PRR, com devolução de verbas e paralisação de investimentos essenciais.
Dito de forma clara: votar contra, sabendo isto, é aceitar — ou fingir ignorar — que projetos parem, que oportunidades se percam e que o concelho fique refém de cálculos políticos. Os argumentos repetem-se: falta de detalhe, ausência de timings, indefinição das ações. Mas esta crítica encerra uma contradição evidente: se o plano não fixa compromissos rígidos nem ações irreversíveis, o que é exatamente que se está a rejeitar?
A falta de detalhe pode justificar prudência. Pode justificar reserva. Pode justificar abstenção. Não justifica o chumbo, salvo quando o objetivo não é melhorar o plano, mas marcar posição. Muitos votos contra são, na verdade, exercícios de risco zero: afirma-se oposição sabendo que o documento passará, transformando a contabilidade dos votos numa encenação política.
Importa ainda lembrar que os períodos de intervenção de cada bancada existem para convocar o futuro, não para revisitar obsessivamente o passado à procura de algo que tenha corrido menos bem. O debate das GOP não é um tribunal retroativo. É, ou deveria ser, um exercício de visão, responsabilidade e construção.
O futuro é o que está em causa. É nele que se decidem investimentos, prioridades e qualidade de vida. O verdadeiro exercício político, nestes momentos, é ajudar, é ser proativo, é contribuir com propostas e caminhos. Não é ser reativo, nem confundir fiscalização com bloqueio.
Quando um GOP é detalhado, com ações concretas e calendários definidos, então haverá — ou não — razões para o rasgar e votar contra. Mas quando se limita a enunciar orientações estratégicas e compromissos necessários, não há razões substantivas para o chumbar. Chumbá-lo não melhora o documento; apenas fragiliza o município.
E é aqui que importa fechar com clareza: o interesse do concelho deve prevalecer sobre o conforto tático das posições políticas. A governação local não se faz de insinuações nem de contas de curto prazo. Faz-se de responsabilidade, visão e compromisso com o futuro.
Tudo o resto são jogos de posição. E quando esses jogos se fazem à custa de Ílhavo, deixam de ser política — passam a ser um problema.