Artigo de Opinião

A subversão da defesa da honra

01.05.202620:39
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A subversão da defesa da honra

Há institutos parlamentares que não existem apenas para organizar o debate, mas para o conter. Para o civilizar. Para impedir que a palavra, no calor político, ultrapasse o limite da dignidade pessoal. A chamada “defesa da honra” pertence a esse núcleo raro de mecanismos de exceção: não é um prolongamento do discurso, não é um direito de réplica alargado, não é um espaço de encenação. É um momento imediato, breve, controlado, e sobretudo dependente da autoridade do presidente da mesa.

Quando esse equilíbrio se perde, não estamos perante um detalhe regimental — estamos perante uma alteração da natureza do próprio funcionamento democrático da assembleia.

O que deveria ser uma decisão de apreciação instantânea, baseada na existência concreta de uma ofensa direta, transforma-se, quando levado a votação do plenário, num processo de dissolução do critério. O presidente, que é chamado a exercer o juízo de contexto, de linguagem e de proporcionalidade, vê a sua autoridade substituída por um mecanismo aritmético. E aquilo que deveria ser jurídico-político torna-se político-partidário.

É aqui que começa a subversão.

Porque a honra, enquanto valor maior da convivência cívica e política, não é um detalhe acessório do debate. É um limite. Um chão comum. Um princípio que antecede qualquer divergência. Se a honra é desvalorizada ao ponto de se tornar matéria de disputa sistemática, então não é apenas o regimento que está em causa — é a própria qualidade da vida democrática.

E digo-o de forma clara e até efusiva: a honra é um valor maior. Sem esse reconhecimento partilhado, sem esse respeito mínimo pelo outro no dissenso, o mundo político fica mais pobre, mais agressivo e mais frágil. E uma assembleia que banaliza a invocação da honra arrisca-se a transformar qualquer discordância num potencial conflito de dignidade. Nesse caminho, a Assembleia Municipal de Ílhavo poderá vir a assistir a um cenário em que a defesa da honra é pedida por tudo e por nada, esvaziando por completo o seu sentido original.

E isso seria uma degradação silenciosa do próprio funcionamento institucional.

Importa sublinhar, com frontalidade, que eu não me sinto desrespeitado pelo facto de o regimento permitir determinados mecanismos. O regimento existe precisamente para enquadrar a divergência, e a divergência faz parte da vida democrática. Até agora, em todas as discordâncias naturais da vida política e institucional, esse mecanismo não tinha sido utilizado desta forma, o que torna ainda mais evidente o carácter excecional — e potencialmente excessivo — da sua invocação neste caso.

E é precisamente aqui que reside um ponto essencial de maturidade democrática: saber que nem tudo o que o regimento permite deve ser usado até ao limite da sua elasticidade.

Acresce ainda que a leitura da alegada ofensa não decorreu de qualquer referência nominal ou imputação direta. As palavras foram proferidas no âmbito do debate, sem destinatário identificado, sendo posteriormente interpretadas como pessoais. E é nessa transição — entre o que é dito e o que é sentido como dirigido — que se abre uma zona perigosa de subjetivação da política, onde a perceção substitui o texto e a emoção substitui o regimento.

Importa também registar o contexto concreto: a minha ausência por motivo de doença alterou o enquadramento da situação e, na minha leitura, se estivesse presente, a defesa da honra não teria sido aceite nos mesmos termos. Não por conveniência, mas por coerência com a avaliação imediata que compete à mesa e à natureza do instrumento em causa.

A defesa da honra não pode ser aritmética — porque a dignidade não se vota.
Não pode ser arbitrária — porque o regimento não é uma ferramenta de conveniência.

E quando uma maioria pode transformar uma exceção em rotina, e uma rotina em instrumento político, então o problema já não é apenas procedimental. É cultural. É institucional. E é, sobretudo, um sinal de que o equilíbrio entre liberdade de expressão e contenção da dignidade está a ser lentamente desajustado.

A honra não pode ser banalizada.
Porque quando tudo passa a ser honra, nada é honra.