Artigo de Opinião

E agora, Hungria?

14.04.202623:55
(créditos da foto: AP Photo/Denes Erdos, in Euronews)

(créditos da foto: AP Photo/Denes Erdos, in Euronews)

Há dois dias (12 de abril) a Hungria viveu um dos momentos políticos mais marcantes da sua história contemporânea. Após dezasseis anos no poder, Viktor Orbán foi derrotado por Péter Magyar. Mais do que um resultado que ultrapassa a simples alternância de poder, a magnitude do processo eleitoral assume contornos de rutura com um modelo político consolidado pelo regime nacionalista e da extrema-direita implementado por Orbán. A elevada taxa de participação e mobilização (79,5% dos cerca de 7,4 milhões de eleitores húngaros), a mais alta da história recente do país, confere a este desfecho uma legitimidade inequívoca (54,41% dos votos e 136 lugares no parlamento, dos 199 possíveis) e revela uma sociedade mobilizada não apenas para escolher um governo, mas para encerrar um ciclo.
No entanto, é importante referir que, perante a conjuntura do regime e o contexto socioeconómico vivido, esta vitória de Péter Magyar deve ser entendida como o resultado de uma convergência política de exceção, congregando todo o voto útil (da direita, ao centro e à esquerda), transformando a eleição num objetivo referendo ao regime, onde a questão fundamental focou-se na dicotomia continuidade do regime versus mudança de regime.

A consequência imediata desta mudança está longe de ser linear. A nova maioria parlamentar que resulta destas eleições abre a porta às aclamadas e desejadas reformas estruturais, incluindo uma revisão constitucional, a reconfiguração do Estado de Direito, o reforço da independência judicial e a devolução ao povo húngaro das suas liberdades e garantias. Porém, há dois desafios principais. Primeiro, a capacidade para renovar um sistema herdado profundamente moldado ao regime de Orbán, com o aparelho do Estado, a Administração Pública e várias instituições-chave marcados por lealdades e práticas associadas ao período anterior. Por isso, esta renovação e transição não serão apenas na esfera política, mas principalmente na restauração da confiança institucional e cultural.
Segundo, a aptidão e competência política para garantir a solidez, a estabilidade e a empatia mobilizadora de uma maior heterogénea, demasiado pluralista na visão e conceção da sociedade e das suas dinâmicas, porque, ultrapassadas as barreiras ideológicas, assentou, exclusivamente, na vontade esmagadora de mudança do regime.
Importa não esquecer que a Hungria enfrenta pressões económicas e sociais significativas, que estiveram na base da derrota de Orbán. A inflação, a estagnação económica e a perceção das desigualdades contribuíram para o descontentamento social, e a necessária aproximação às expetativas, necessidades e carências da população não será tão automática e imediata como os húngaros anseiam. A confiança terá de ser reconstruída com base em reformas concretas e realistas, construídas de forma partilhada e pluralista, sob pena desta mobilização surgida nas eleições e da coesão nacional em torno da mudança se esmorecerem e criarem clivagens políticas e sociais.

Apesar da tão aplaudida viragem democrática, merecida e legítima, inclusive face à tentativa falhada de interferência pública americana (mais uma derrota para a Administração Trump… e o próprio), o futuro da Hungria permanece incerto. A história recente mostra que a queda de regimes com características iliberais e autocráticos não garante, por si só, uma transição bem-sucedida para uma democracia plena. A nova governação de Péter Magyar terá de gerir expectativas elevadas, evitar a fragmentação da sua base de apoio e demonstrar resultados concretos num horizonte relativamente curto. Caso contrário, existe o risco de desilusão do eleitorado e de reconfiguração do campo populista e do regresso de “fantasmas políticos”, eventualmente sob novas lideranças.

No plano europeu e geopolítico, o impacto desta eleição é igualmente significativo. A derrota de Orbán enfraquece uma rede formal de lideranças nacionalistas, populistas e de extrema-direita que, nos últimos anos, procuraram afirmar uma alternativa ao modelo europeu de democracia liberal (não confundir com liberalismo ou neoliberalismo ideológico). Reduz-se, assim, o constante recurso à “arma” do bloqueio interno dentro da União Europeia e reforça-se a coesão em torno de decisões estratégicas comuns, incluindo no contexto da guerra na Ucrânia.

Ainda assim, a mudança na Hungria transmite um sinal político relevante: mesmo um sistema autocrático ou iliberal não é imune à alternância democrática, apesar dos fortes mecanismos de controlo institucional, das liberdades e dos direitos, apesar da configuração de um Estado profundamente assimétrico e desequilibrado, com uma economia marcada por redes de clientelismo e acusações recorrentes de corrupção, com 16 anos de regime que moldou o sistema judicial, limitou o pluralismo, as liberdades e os direitos, e a capacidade de escrutínio.
Estas eleições de 12 de abril de 2026, na Hungria, demonstraram que a erosão democrática, a autocratização da democracia, pode ser revertida por via eleitoral, pela força democrática do voto, mas, mesmo assim, e neste caso concreto, deixam em aberto uma questão essencial: será esta reversão sustentável?
A resposta a esta pergunta terá implicações que ultrapassam largamente as fronteiras do mero resultado eleitoral final e imediato registado neste dia 12 de abril.