A ‘trumpização’ do projeto europeu
Há uma frase repetidamente proferida por Volodymyr Zelensky aquando da invasão da Ucrânia pela Federação Russa (há, precisamente, três anos – 21 de fevereiro de 2022) que, hoje, ganha contornos ainda mais realistas e pragmáticos: defender a Ucrânia é defender a Europa e os valores europeus.
Apesar de tantos apelos de Zelensky e depois de três anos de agonia, destruição, guerra, morte e sofrimento, a União Europeia bateu de frente no muro da factualidade e da realidade geopolítica, fruto da incompreensível permanente indecisão, da falta de determinação em não ter colocado os “pés” no território ucraniano e da ausência de capacidade política demonstradas ao longo destes três anos da inaceitável invasão de um Estado soberano e a tentativa de subjugar a vontade democrática de um povo determinar, legitimamente, o seu destino coletivo.
Hoje, não só a União Europeia falhou com a Ucrânia, como tende, a olhos vistos, a falhar com ela própria, espelho do papel que não desempenhou na defesa da soberania ucraniana (porque defender a Ucrânia é, igualmente, defender a Europa).
A corrosão oligárquica da democracia norte-americana, nesta perigosa e condenável segunda era de Trump na Casa Branca, a visão imperialista e mercantilista que tem do e para o mundo transformou a realidade global e o xadrez geopolítico, no qual, claramente, a União Europeia não conta, nem é ator de referência ou parceira.
Trump não tem qualquer empatia ou preocupação com a Ucrânia, nem qualquer sentimento messiânico de defender a democracia e o direito internacional (que abomina). Para Trump a questão da Ucrânia é meramente transacional e geopolítica: a exploração dos recursos naturais a troco de uma paz podre e da sobrevivência de um povo, e, por outro lado, com a aproximação a Putin, tentar secundarizar o papel estratégico da China no mundo.
Mas esta questão da Ucrânia é só uma das faces da moeda.
A reversão dos fundamentos da democracia, dos valores e dos direitos humanos e da liberdade, o desprezo pela política e pelo direito internacional, a visão oligárquica do exercício do poder (propensa à autocratização) têm repercussões miméticas na Europa e nos valores do projeto europeu, minando a coesão interna e a unidade política e estratégica da União Europeia, como o demonstram, por exemplo, o crescimento ideológico da extrema-direita e do sentimento pró-Trump e pró-Putin.
Não é só a segurança e a defesa que estão em causa. É todo o projeto europeu (paz, união e desenvolvimento) e os nossos valores democráticos da liberdade, igualdade e fraternidade que estão a ser questionados e corroídos.
Tal como desde há três anos tem falhado com a Ucrânia, hoje, a Europa, falha consigo mesma.
| Anexo | Tamanho |
|---|---|
| episódio #19 Politicamente Insurreto (25FEV2025) | 7.83 MB |