Governar para todos
Governar para todos
Há uma ideia que tem ganho força nos últimos anos: a de que a política se faz, sobretudo, nas redes sociais. Parece que o sucesso de um executivo depende do número de comentários, da rapidez das respostas ou da capacidade de ocupar permanentemente o espaço mediático.
Não concordo.
As redes sociais são importantes. São um instrumento de comunicação, de proximidade e de escrutínio. Mas não podem transformar-se no principal critério para avaliar quem governa um município. Se assim fosse, correríamos o risco de confundir comunicação com governação.
Quem assume responsabilidades autárquicas tem uma missão muito clara: resolver problemas, concretizar projetos, gerir recursos públicos com rigor e melhorar a qualidade de vida das pessoas. É nisso que deve concentrar a maior parte da sua energia.
Naturalmente, os partidos e os seus militantes têm também um papel importante. Devem explicar as opções tomadas, esclarecer dúvidas, participar no debate público e manter uma ligação permanente à comunidade. Isso é saudável para a democracia. Mas uma coisa é participar; outra é viver obcecado com a necessidade de responder a tudo, de estar em todo o lado ou de transformar cada publicação numa batalha política.
Há uma perspetiva diferente que merece reflexão.
Quando um município organiza um festival, uma festa popular, uma iniciativa cultural, um evento desportivo ou uma atividade para as famílias, o objetivo não é reunir apoiantes de um partido. O objetivo é reunir pessoas.
Esses momentos pertencem ao concelho. São de todos. Dos que votaram na maioria, dos que votaram na oposição e até dos que nunca votaram.
Por isso, se vemos cidadãos de todas as sensibilidades políticas a participar nas iniciativas promovidas pelo município, isso não deveria ser motivo de preocupação. Pelo contrário. Talvez seja o melhor elogio que se pode fazer ao trabalho desenvolvido.
Se até quem critica faz questão de estar presente, é porque o evento vale a pena.
Uma boa política municipal mede-se precisamente por essa capacidade de criar espaços onde a comunidade se encontra, convive e participa, independentemente das diferenças políticas. A vida democrática faz-se do confronto de ideias; a vida do concelho faz-se da capacidade de unir pessoas.
Também devemos aprender com a história recente.
Durante demasiado tempo, muitos acreditaram que a tradição, o legado ou a força eleitoral do passado eram suficientes para garantir vitórias futuras. Essa confiança excessiva revelou-se um erro. Em democracia, ninguém ganha por antecipação. A confiança dos cidadãos conquista-se todos os dias.
As vitórias eleitorais são consequência do trabalho realizado, da credibilidade demonstrada e da capacidade de cumprir aquilo que foi prometido. Não resultam apenas de uma estratégia de comunicação, nem da intensidade do debate político.
É evidente que ninguém defende um partido acomodado ou silencioso. Seria um erro grave. A proximidade com as pessoas deve existir durante todo o mandato e não apenas em ano de eleições.
Mas essa proximidade não se mede pelo número de fotografias publicadas, pela quantidade de comentários respondidos ou pela presença obrigatória em todos os acontecimentos. Mede-se pela disponibilidade para ouvir, pela coerência das decisões, pela capacidade de explicar opções difíceis e, sobretudo, pela qualidade dos resultados.
No fim, há uma pergunta simples que qualquer executivo deveria fazer a si próprio.
Os nossos eventos atraem apenas quem já concorda connosco ou conseguem mobilizar toda a comunidade?
Se a resposta for a segunda, então talvez estejamos perante o melhor indicador de uma boa governação.
Porque um município não existe para servir uma maioria política. Existe para servir todos os cidadãos.
E quando as iniciativas municipais conseguem juntar apoiantes, opositores, independentes e até aqueles que normalmente se mantêm afastados da vida pública, isso não representa uma derrota política.
Representa exatamente o contrário.
É sinal de que o município está vivo, que as pessoas se reconhecem no espaço público que foi criado e que a governação está a cumprir a sua missão mais importante: construir uma comunidade mais forte, mais participativa e mais unida.
No fim de contas, a melhor campanha eleitoral nunca foi feita nas redes sociais.
Continua a fazer-se na rua, nas associações, nas coletividades, nas escolas, nas empresas e na confiança que os cidadãos depositam em quem trabalha todos os dias pelo seu concelho.
Porque o verdadeiro sucesso de um executivo não é vencer discussões.
É deixar um município melhor do que aquele que encontrou.