Sobre o “namoro governativo” aveirense à vereação do Chega
(crédito da foto: Eduardo Pina, in Diário de Aveiro)
É mais que pública, até exageradamente mediatizada para o que representa fora dos limites da governação local do Município de Aveiro, a tentativa ou a proposta de ‘parceria público-partidária’ entre o Presidente da Câmara Municipal de Aveiro e a vereação do Chega, com o propósito (o único, diga-se) de garantir uma maioria governativa na gestão autárquica aveirense. E este é, de facto, o único propósito justificável (mesmo que criticável… já lá iremos) porque não se encontram quaisquer pontos de concordância ou de proximidade programática e estratégia para Aveiro. Também seria difícil porque, da parte da gestão municipal, estratégia e visão programática é algo que rareia, para não dizer, que não existe de todo. Mas também face ao que foi o registo da campanha eleitoral e a dissonância de visão sobre aspetos e projetos estruturantes para o Município (ou até de ‘miudezas’ editoriais e livreiras). E não colhe a narrativa de que em campanha, com a pressão eleitoral e o confronto partidário dizem-se muitas coisas de ‘momento’. Porque então, aqui, estamos bem piores, porque isso é só o sinal de que a campanha serviu para iludir e enganar o eleitorado aveirense (o que, aliás, só não viu quem não quis… apesar de tudo cerca de 61% dos aveirenses acabou por ver).
O argumento do Presidente da Câmara Municipal de Aveiro – numa visão ‘calimero’ da governação – assenta em duas verdades bem objetivas: o facto dos vereadores do PS no Executivo Municipal e dos eleitos, na lista do PS, à Assembleia Municipal, estarem a honrar o compromisso que firmaram com os aveirenses e com aqueles que depositaram toda a confiança no projeto “Um Futuro com Todos” para Aveiro, e a fazer o que 34% dos aveirenses (pelo menos) esperam que o PS faça, que cumpra o seu papel e a sua missão enquanto oposição – fiscalizar, propor alternativas, assegurar o desenvolvimento e a coesão territorial, de forma séria, responsável, justa, equitativa e sustentável. Por outro lado, conforme o próprio argumenta publicamente, também é bem verdade que o Presidente da Câmara Municipal de Aveiro tem tido uma enorme dificuldade em governar face aos constrangimentos e obstáculos com que se tem deparado. Mas há uma diferença, é que não é por causa da oposição ou da Justiça (que só é boa quando nos interessa… como no caso da apelidada ‘Casa da Cerciav’). É mesmo por inaptidão para a função e para o cargo, pelos desafios, pela exigência e pela complexidade que o mesmo acarreta – algo que foi tantas vezes avisado na campanha (até mesmo com algum constrangimento no seio do PSD, basta lembrarmo-nos de Ribau Esteves).
E até podemos acrescentar uma terceira verdade objetiva, face às afirmações que Luís Souto foi deixando aos ventos na comunicação social e na esfera pública: a aproximação, para não dizer ‘casamento’, à extrema-direita aveirense reflete o panorama nacional com as posições semelhantes do PSD e do Governo de Montenegro (para não confundirmos os ‘luíses’). E é incontestável o argumento. Não só o argumento, como a realidade percecionada e vivenciada pelo país e pelos portugueses. É que, desta vez, nem estão melhor os portugueses (saúde, educação, carga fiscal, trabalho, providência social, …), nem está melhor o país.
Tal como no Parlamento e no Governo, também na governação de Aveiro a aproximação à extrema-direita não tem nada a ver com valores, com princípios, com estratégia e visão, com a figura de André Ventura ou de Diogo Machado. No país, a sombra sebastiânica de Passos Coelho sobre a frágil governação de Montenegro faz pairar o fantasma do apocalipse político. Em Aveiro, a incapacidade de governar, de ouvir, partilhar e incluir o pluralismo, a pressão sobre a estagnação e o marasmo que paira sobre o município e os aveirenses (para além de eventual desconforto no eleitorado PSD/CDS Aveiro) leva à presente fuga para a frente, mesmo que não haja qualquer noção dos seus impactos e dos resultados de tal devaneio político-partidário.
Mas esta realidade governativa aveirense diz muito mais, ou diz apenas tudo, sobre quem “se oferece”, do que sobre quem, legitimamente, “aceita”. O que ainda é mais preocupante e perigoso.
Como já o referi várias vezes, mesmo criticando a posição do Partido Socialista sobre a matéria, nem quero imaginar o que seria esta gestão autárquica em Aveiro se a proposta PS/PSD sobre a alteração à Lei Eleitoral Autárquica – executivos ‘monocolores’ partidários – estivesse em execução. São elevados os perigos e os riscos para o Poder Local que esse abalo estrutural na democracia, na governação de proximidade e no desenvolvimento municipal impactaria com muitas, para não dizer com a maioria, das realidades governativas e políticas e das dinâmicas socioeconómicas dos 308 municípios portugueses.
Duas notas finais (e complementares)
Uma declaração de (não) interesse.
Conheço o Diogo Machado (vereador eleito pelo Chega à Câmara Municipal de Aveiro) há quase 40 anos. Com as dinâmicas da vida, a partir de determinada altura desvaneceu o relacionamento e o contacto. Apesar disso, reconheço, contudo, que foi com alguma surpresa (significativa, diga-se) que o (re)encontro politicamente assumido e ativo com o partido da extrema-direita. Deixo as considerações ideológico-partidárias de lado e as opções políticas pessoais. Não é esse, minimamente, o interesse ou o foco.
Contudo, e a menos que não tenham sido apenas as meras convicções partidárias que se alteraram no Diogo, ainda consigo lembrar-me do seu carácter, das convicções firmes, constantes e consistentes, e da sua espinha dorsal política, mesmo reconhecendo a legitima ambição pelo poder que sempre o caracterizou e que não tem nada de errado. É uma expetativa meritória, válida como outra qualquer.
O que ainda estarei para perceber, face ao exposto, é como é que o Diogo Machado irá justificar aos seus mais de 4.200 apoiantes (quase 11% dos votos) que todas as criticas e acusações em relação ao PSD dos 3 últimos mandatos, ao PSD atual e a Luís Souto (algumas já bem para além da campanha eleitoral), à afirmação de que, apesar de tudo, seria mis fácil gerir entendimentos com uma liderança de Alberto Souto do que a de Luís Souto na Câmara Municipal (nos debates eleitorais – in Notícias de Aveiro de 26 de setembro de 2025: «É muito menos difícil negociar com Alberto Souto a aplicação de alguns dos nossos compromissos»), ou como é que, a propósito do “poder” se subscreve uma estratégia (mesmo que seja uma miragem) e uma visão para o Município que se criticou e com a qual nunca se identificou. Mas isso será sempre um problema do Digo e do Chega. E repito… todo este contexto diz mais de quem propõe do que de quem aceita.
O “ponto de ordem à mesa” final. Dos factos…
No rescaldo eleitoral autárquico de outubro de 2025 resulta que cerca de 1/3 (82) dos Executivos das Câmaras Municipais (247 no continente) foram eleitos sem maioria absoluta. Destes, 26 correspondem à eleição de Presidentes de Câmara do PSD, 27 do PS e 2 do Chega, para além de outras forças políticas como a CDU, o CDS e os Movimentos de Cidadãos. Mas ao caso, interessa-nos as referências ao PS, PSD e Chega.
Há, entre as 26 autarquias PSD sem maioria, 14 Presidentes e Câmara eleitos que tiveram a coragem de optar por uma gestão autárquica minoritária e respeitar a vontade expressa dos eleitores (como o caso de Ílhavo, por exemplo) e 12 autarcas (praticamente 50%) que optaram por coligações pós-eleitorais para formar maiorias no Executivo: 6 com a extrema-direita (sendo que no caso de Sintra são 2 lugares de vereação), 2 com um candidato de um Movimento de Cidadãos (Ovar e Amares), 1 com um vereador eleito pelo PS e 3 candidatos (já na lista) independentes pelas listas socialistas (como, por exemplo, no Porto).
Mas também o PS, nalguns municípios (apenas 4, num total de 27: Viseu, Marinha Grande, Vila Nova da Barquinha e Odivelas, neste caso com 2 lugares ‘cedidos’ ao PSD), optou (mal, diga-se, desde já, na minha opinião) por garantir maiorias governativas com o apoio de outras forças, nomeadamente o PSD (ou ex-PSD, como em Viseu), a CDU ou candidatos “independentes”. Com uma enorme diferença em relação ao PSD: não há nenhum acordo, em nenhum município, com a partido da extrema-direita. Nem mesmo no tão badalado caso de Mirandela, distrito de Bragança, com a desfiliação do vereador eleito pelas listas do Chega ainda antes da Tomada de Posse. Nem aí. E já agora, já que tem sido tão mediatizado – erradamente – nem no caso de Coimbra, que quem venceu as eleições foi uma coligação (PS, Livre e PAN) e não há nenhuma cedência de pelouros a nenhuma outra força política, nem à, agora independente, eleita pelo Chega.
Curiosamente, nas duas autarquias em que o Chega conquistou a presidência da Câmara Municipal (em minoria), Entroncamento (claramente, um fenómeno) e Albufeira, o partido da extrema-direita não fez qualquer coligação com outros vereadores eleitos, nomeadamente do PSD.