A notícia esqueceu quem lembrou.
A notícia esqueceu quem lembrou
Por Carlos Pedro
Tenho estima pessoal pelos profissionais da Rádio Terra Nova envolvidos nesta notícia. Acredito que a omissão que aqui assinalo não foi propositada. Mas não tenho dúvidas de que deixou uma narrativa enviesada do que aconteceu no debate da Assembleia Municipal de Ílhavo sobre a Comissão Eventual de Acompanhamento das Obras Financiadas pelo PRR.
Uma coisa é o funcionamento da comissão, que não correu bem. Outra é a notícia sobre o debate em que esse funcionamento foi discutido. São questões distintas, e reconhecer a primeira não dispensa o rigor na segunda.
Nesse debate, José Carapelho, do PSD, lembrou um ponto essencial: perante a indisponibilidade do presidente da comissão, os restantes membros também podiam ter tomado iniciativas para que os trabalhos prosseguissem.
Considero esse argumento acertado. A sua ausência na notícia deixou os leitores sem uma parte relevante da discussão.
Ao destacar as acusações sobre a responsabilidade do PSD pela inatividade da comissão e omitir a explicação de José Carapelho, a notícia não apresentou o argumento que questionava essa atribuição de responsabilidade: os restantes membros também podiam ter procurado uma solução.
Esse esclarecimento não elimina a necessidade de avaliar a atuação do presidente nem de perceber o que falhou. Obriga, contudo, a considerar a atuação de todos os que integravam a comissão.
Quanto à minha posição, sempre entendi que esta comissão era desnecessária. Considerava que o Roteirómetro e os mecanismos de fiscalização do PRR eram suficientes para assegurar o acompanhamento das obras. Ainda assim, abstive-me na sua criação, porque não queria que um voto contra fosse objeto de uma interpretação política que não correspondia à minha intenção.
Uma vez criada a comissão, essa discordância não me retirava a possibilidade de contribuir para o seu funcionamento. Também eu podia ter sido parte da solução e não fui. Entre as muitas coisas de que me ocupo, não me lembrei de tomar essa iniciativa. Assumo-o sem dificuldade.
Mas o assunto deste artigo é a notícia. A minha situação serve apenas para mostrar que aceito o alcance do argumento de José Carapelho, incluindo quando também me diz respeito.
À rádio, quando noticia, cabe relatar os factos: o que aconteceu, o que foi dito e quais as posições apresentadas. Não lhe cabe substituir esse relato por uma opinião sobre os motivos pelos quais alguém não agiu.
Esses motivos devem ser perguntados aos próprios. Sem as suas explicações ou outros elementos que os comprovem, não podem ser apresentados como factos. A Terra Nova dispõe de espaços como o Discurso Direto, entre outros, onde pode colocar perguntas, confrontar posições e procurar esclarecimentos.
Na notícia sobre a Assembleia Municipal, o dever era dar a conhecer o debate, incluindo as acusações e o argumento apresentado em resposta. O facto de uma acusação ter sido proferida é notícia; isso não transforma o conteúdo dessa acusação numa conclusão demonstrada.
Reconheço que uma notícia exige síntese. Pode não haver espaço para reproduzir todas as palavras, mas tem de haver espaço para todas as posições relevantes. Sobretudo para uma intervenção que responde diretamente às acusações destacadas.
Um órgão de comunicação social não deve selecionar partes de um mesmo acontecimento de forma que uma acusação fique visível e a resposta desapareça. O leitor precisa de conhecer ambas para formar a sua opinião.
A estima que tenho pelos profissionais envolvidos e a minha convicção de que não houve intenção não alteram o resultado: a omissão deixou uma narrativa enviesada da realidade do debate. É essa consequência que considero necessário corrigir.
A comissão não funcionou bem. Sobre isso, há responsabilidades a discutir. Mas a notícia tinha de relatar com rigor o que se passou na Assembleia Municipal e dar lugar aos diferentes pontos de vista.
Houve quem lembrasse que os restantes membros também podiam agir. A notícia esqueceu quem lembrou.