Educar para o futuro numa sociedade em transformação digital
A Escola não pode preparar os nossos jovens apenas para o mundo que existe, para o presente. Tem de lhes dar ferramentas para compreender, questionar e transformar o mundo que está a chegar. É por isso que a Educação STEAM (Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática) é muito mais do que uma opção pedagógica. É uma aposta no futuro e, diria mesmo, uma escolha de políticas públicas.
No Município de Ílhavo, queremos que essa escolha se faça com conhecimento, com aprendizagem e com ambição. A colaboração com a Fábrica Centro Ciência Viva e com a Universidade de Aveiro é, neste domínio, fundamental. São parceiros que nos permitem aproximar a Escola da ciência, da experimentação, da investigação e da inovação e, sobretudo, criar oportunidades para que as nossas crianças e jovens não sejam apenas consumidores de tecnologia, mas também cidadãos capazes de a questionar.
Esta questão tornou-se ainda mais urgente com a emergência do fenómeno da Inteligência Artificial (IA).
Estamos perante uma transformação tecnológica de enorme dimensão. A IA pode melhorar diagnósticos, apoiar a investigação científica, tornar serviços mais eficientes, facilitar o acesso ao conhecimento, ajudar empresas e instituições e criar novas oportunidades de aprendizagem e de desenvolvimento.
Mas seria um erro olhar para esta transformação apenas pelo lado das oportunidades e dos benefícios.
A Inteligência Artificial também coloca problemas que são profundamente éticos, políticos e sociais: quem controla os dados? Quem define os algoritmos? Como protegemos a privacidade? Como combatemos a desinformação produzida ou amplificada pelos sistemas digitais? Como garantimos transparência quando decisões que afetam pessoas recorrem a sistemas que nem sempre conseguimos compreender? E como evitamos que a inovação tecnológica aumente as desigualdades entre quem tem acesso às novas ferramentas e quem fica excluído delas?
É por isso que a literacia digital não pode limitar-se a ensinar alguém a utilizar uma aplicação ou uma ferramenta de inteligência artificial. É preciso ensinar a questionar: quem produz esta informação? Com que dados? Com que objetivo? Quem beneficia? Que consequências pode ter?
Estas não são perguntas para o futuro. São perguntas do presente, mas que podem condicionar o futuro.
O mesmo acontece com o mundo digital. Nunca tivemos tanto acesso à informação e, simultaneamente, nunca foi tão importante saber distinguir informação de conhecimento, facto de opinião, verdade de manipulação. As redes digitais aproximam pessoas, democratizam o acesso à comunicação e podem criar novas formas de participação cívica. Mas também podem favorecer a desinformação, a polarização, a exposição permanente e novas formas de dependência e controlo.
Esta é também uma questão do fórum da democracia.
Uma sociedade tecnologicamente avançada, mas incapaz de formar cidadãos críticos, corre o risco de ser uma sociedade mais vulnerável e não necessariamente mais livre. A tecnologia deve ampliar a liberdade das pessoas, não diminuir a sua autonomia.
É neste ponto que a Educação STEAM assume uma dimensão decisiva. Ciência e tecnologia, sim, mas também as Artes, criatividade, pensamento crítico, comunicação e capacidade de trabalhar com os outros. Precisamos de formar ‘jovens digitais’, mas também de compreender os impactos sociais; jovens capazes de utilizar a Inteligência Artificial, mas também de desconfiar de uma resposta aparentemente perfeita; jovens capazes de inovar, mas conscientes de que nem tudo o que é tecnicamente possível é social e eticamente desejável.
Enquanto Poder Local, não podemos ficar à margem desta transformação.
Temos de criar condições para que o acesso à inovação seja democrático e para que ninguém fique para trás por falta de oportunidades. Temos de aproximar conhecimento, escola, ciência, empresas, instituições e comunidade. E temos de fazer das nossas políticas educativas uma verdadeira política de futuro e queremos preparar a nossa comunidade para participar nelas.
No Município de Ílhavo, a nossa resposta passa pela educação, pelo conhecimento e pela participação.
Porque a melhor inteligência será sempre aquela que estiver ao serviço da democracia, da liberdade e da dignidade humana.