Artigo de Opinião

Quem pode, pode — mas deve?

05.10.202619:50
pois, pois

Quem pode, pode
Há uma frase popular que, apesar da simplicidade, explica muito sobre a forma como o mundo funciona: “Quem pode, pode.”
Não é uma defesa da desigualdade, nem significa que quem tem poder tenha razão. É apenas o reconhecimento de uma realidade que muitas vezes preferimos esconder atrás da ideia de que as regras são iguais para todos.
Em teoria, podem ser. Na prática, as consequências de desafiar essas regras raramente são iguais para todos. Duas pessoas podem estar sujeitas à mesma norma, mas aquela que tem dinheiro, estatuto, talento raro, influência ou é muito difícil de substituir possui uma margem de escolha que a outra não tem.
É isso que significa “quem pode, pode”: não quer dizer “quem pode tem razão”. Quer dizer que quem acumulou poder suficiente consegue fazer escolhas, impor condições ou suportar consequências que para os outros seriam incomportáveis.
Ronaldo não é um jogador normal
O episódio entre Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e a Seleção Nacional é um bom ponto de partida para pensar nesta ideia. Talvez seja mais interessante do que simplesmente decidir quem tem razão.
Podemos dizer que Cristiano Ronaldo deve ser tratado como qualquer outro jogador, mas isso não corresponde inteiramente à realidade. Ronaldo não é apenas mais um internacional português. É uma das maiores figuras da história do futebol, foi durante anos capitão, bateu recordes e tornou-se um símbolo da Seleção com um peso mediático e comercial excecional.
Isso não significa que tenha de jogar. O selecionador deve conservar o direito de decidir quem joga, quem fica no banco e quem é substituído. Se um treinador for obrigado a colocar determinado jogador porque esse jogador assim o exige, alguma coisa fundamental na hierarquia de uma equipa deixou de funcionar.
Mas reconhecer a autoridade do treinador não elimina a outra realidade: Ronaldo tem um poder que os outros jogadores não têm.
Poder não é o mesmo que razão
Se Ronaldo abandonou a Seleção essencialmente porque não jogou, a atitude é difícil de justificar num jogador com a sua experiência e, sobretudo, num capitão. Poderia até ter acontecido o contrário: aceitar o banco e permanecer ao lado dos companheiros teria sido uma demonstração poderosa de liderança.
O homem que ganhou praticamente tudo poderia mostrar aos mais novos que até Cristiano Ronaldo aceita uma decisão do treinador quando ela não lhe agrada.
Mas ele possui algo que a maioria dos jogadores não possui: a capacidade de dizer “não aceito” e obrigar toda a estrutura a reagir. Isso é poder. Podemos não gostar desse poder e podemos considerar injusta a forma como é utilizado. Negar que existe, porém, não o faz desaparecer.
A própria negociação demonstra o poder
Há um pormenor particularmente revelador: as tentativas de negociação e de aproximação com Cristiano Ronaldo.
Se estivéssemos perante um jogador sem o seu estatuto, provavelmente haveria pouco para negociar. O princípio seria simples: o selecionador escolhe quem joga; o jogador aceita a decisão; se abandonar o estágio por não jogar, terá de assumir as consequências.
Se, perante Ronaldo, há reuniões, aproximações e tentativas de encontrar uma solução para o seu regresso, isso é em si mesmo uma demonstração do “quem pode, pode”. Se ele não tivesse poder negocial, a resposta institucional poderia limitar-se a reafirmar a autoridade do treinador e o dever de escolher, em cada momento, os jogadores que oferecem melhores condições à equipa.
Não seria necessário negociar. O facto de se negociar mostra que a relação de forças não é a mesma que existiria com outro jogador.
E se Ronaldo não tivesse saído?
Ronaldo decidiu sair. Mas a pergunta talvez mais interessante seja outra: se não tivesse saído, alguém o afastaria?
Formalmente, claro que poderia. O selecionador decide as convocatórias e a utilização dos jogadores. Nenhum futebolista é proprietário do seu lugar na Seleção.
Mas a verdadeira questão é prática: estaria o selecionador disposto a dizer a Cristiano Ronaldo que deixaria de ser opção? E estaria a Federação preparada para suportar todas as consequências dessa decisão?
É aqui que percebemos que poder não é apenas autoridade escrita num organigrama. Poder também se revela quando duas partes dizem “não” e descobrimos qual delas precisa mais da outra.
O teste dos 45 minutos
Imaginemos um cenário extremo, mas útil para testar a ideia. Ronaldo diz: “Regresso, mas quero a garantia de jogar pelo menos 45 minutos em cada partida.”
Um jogador normal dificilmente teria espaço para colocar uma condição dessas. Mas Ronaldo poderia, pelo menos, colocá-la. Jorge Jesus poderia recusar e teria legitimidade desportiva para o fazer. Ronaldo poderia responder: “Então não volto.” E a FPF ficaria entre os dois.
Talvez surgisse uma solução intermédia: oficialmente, o treinador manteria toda a liberdade; na prática, Ronaldo receberia um papel importante e muitos minutos. Todos preservariam a face.
Mas, se Ronaldo fosse inflexível — 45 minutos garantidos ou nada — descobriríamos realmente onde termina o poder do jogador e começa o poder do selecionador. Aceitar formalmente uma garantia desse género significaria que uma parte da decisão técnica deixaria de pertencer exclusivamente ao treinador.
A injustiça também pode estar no banco
Há, porém, uma dimensão que não pode ser esquecida: a justiça não deve ser analisada apenas do ponto de vista de Ronaldo.
Imaginemos um jovem jogador português em plena afirmação, com potencial para representar a Seleção durante os próximos dez anos. Está em melhor momento, oferece mais à equipa naquele jogo e precisa desses minutos para crescer ao mais alto nível.
Se esse jogador ficar no banco apenas porque é necessário garantir minutos a Ronaldo, quem está a ser tratado injustamente?
Ronaldo já teve centenas de oportunidades para representar Portugal. Bateu recordes, conquistou títulos e escreveu uma história que ninguém lhe pode retirar. A Seleção deve-lhe reconhecimento e respeito. Mas gratidão pelo passado não pode transformar-se automaticamente num direito adquirido sobre o futuro.
Uma Seleção não existe para homenagear carreiras. Deve procurar colocar em campo os jogadores que, naquele momento, oferecem melhores condições à equipa e, ao mesmo tempo, preparar a geração seguinte.
Contrariar Ronaldo pode parecer duro. Mas retirar espaço a um novo talento apenas para preservar o estatuto de quem já deu à Seleção aquilo que tinha para dar pode ser uma injustiça ainda maior.
O lugar tem de continuar em jogo
Há uma realidade que nenhum grande jogador consegue vencer: o tempo.
Durante muitos anos, Cristiano Ronaldo não precisava de pedir para jogar. O seu rendimento exigia que jogasse. A sua garantia estava no relvado.
Talvez a verdadeira mudança aconteça quando começa a ser necessário negociar aquilo que antes era evidente. Quando o estatuto passa a pesar mais na discussão do que o rendimento presente, a pergunta deixa de ser apenas “o que fez este jogador?” e passa a ser “o que pode oferecer agora?”.
Um lugar na Seleção não deve ser uma homenagem ao que alguém já fez. Deve estar em jogo todos os dias, porque há sempre alguém no banco a aquecer à espera de o conquistar.
As regras podem ser iguais; o poder nunca é
O caso Ronaldo é apenas um exemplo de uma realidade muito mais ampla. Isto acontece nas empresas, na política, nos negócios e nas relações humanas.
Dois trabalhadores podem estar sujeitos ao mesmo regulamento, mas aquele que possui conhecimentos raros, controla o maior cliente ou é praticamente impossível de substituir terá maior capacidade de negociação. Dois clientes podem estar sujeitos às mesmas condições, mas aquele que representa metade da faturação terá uma força que o pequeno cliente não possui. Uma pessoa com dinheiro consegue enfrentar determinadas consequências de uma maneira que outra, sem recursos, simplesmente não consegue.
A regra pode ser exatamente a mesma. O custo de a desafiar é que não é.
Por isso, dizer que todos devem ser iguais perante as regras continua a ser um ideal necessário. Mas não chega para explicar como o mundo realmente funciona. Entre aquilo que está escrito e aquilo que acontece existe poder.
Pode porque pode; se deve, é outra questão
Há aqui uma distinção que convém tornar explícita. No caso de Ronaldo, a pergunta “pode fazê-lo?” já recebeu uma resposta prática: pode, porque o fez. Saiu do estágio e assumiu as consequências possíveis dessa decisão. O próprio facto de a situação ter dado origem a tentativas de aproximação e negociação mostra que o seu poder não é apenas teórico.
Se a sanção financeira aplicável for, como tem sido noticiado, de apenas algumas centenas de euros, isso também ajuda a perceber uma dimensão essencial do poder: uma regra cujo preço alguém consegue pagar sem dificuldade limita essa pessoa muito menos do que limita quem não consegue suportar esse preço. A existência de uma sanção não significa, por si só, que ela tenha o mesmo efeito dissuasor sobre todos.
Depois surge uma pergunta diferente: devia Ronaldo tê-lo feito? Essa já não é uma questão de poder, mas de valores pessoais. Podemos entender que um capitão deveria aceitar a decisão do treinador, permanecer com os colegas e dar o exemplo. Outros poderão considerar que, depois de tudo o que deu à Seleção, tinha legitimidade moral para estabelecer um limite e sair.
O essencial é não confundir as duas perguntas. “Posso?” e “devo?” pertencem a planos diferentes. O poder responde à primeira; a consciência, os valores, a lealdade e a ideia de liderança de cada pessoa respondem à segunda. Ter capacidade para fazer alguma coisa não a transforma automaticamente numa coisa certa — mas considerá-la errada também não elimina a capacidade real de a fazer.
Podemos ter poder e escolher não o usar
Há, contudo, uma segunda metade desta ideia que é ainda mais importante: quem pode, pode — mas não tem de o fazer.
Ter poder significa possuir uma possibilidade, não uma obrigação. Um empresário pode ter força suficiente para esmagar um fornecedor numa negociação e decidir não o fazer. Um chefe pode conseguir impor uma decisão e escolher ouvir os outros. Uma pessoa muito rica pode exigir privilégios e optar por não os pedir. Ronaldo pode ter poder suficiente para colocar condições à Seleção e decidir não utilizar esse poder.
Talvez seja precisamente aí que apareça uma forma superior de liderança. É relativamente fácil respeitar uma regra quando não temos força para a desafiar. Muito mais revelador é respeitá-la quando sabemos perfeitamente que poderíamos obrigar os outros a abrir uma exceção.
O poder, portanto, não está apenas em quem exige. Também está em quem consegue dizer não. Ronaldo pode ter poder para impor condições. Jesus tem autoridade para recusá-las. A FPF possui poder institucional e comercial para pressionar ambos. O verdadeiro equilíbrio nasce desse choque.
Quem pode, pode — até deixar de poder
O poder raramente é permanente. O trabalhador indispensável deixa de o ser. O empresário dominante encontra um concorrente. O cliente deixa de representar metade das vendas. O jogador extraordinário aproxima-se do fim da carreira.
Talvez por isso a frase completa devesse ser: “Quem pode, pode — até ao dia em que deixa de poder.”
E talvez seja precisamente isso que torna este episódio tão interessante. Não estamos apenas perante uma discussão sobre um jogador que ficou no banco. Estamos perante o encontro entre a autoridade formal de quem dirige e o poder informal de alguém que, pela dimensão da sua carreira, se tornou maior do que o lugar que ocupa.
A própria tentativa de negociar com Ronaldo mostra que ele pode. Mas isso coloca também uma responsabilidade sobre quem dirige a Seleção: o “quem pode, pode” não pode significar que quem possui mais poder tenha necessariamente prioridade sobre quem possui mais mérito desportivo naquele momento.
Porque, nesse caso, deixa de existir apenas uma exceção para Ronaldo. Cria-se uma injustiça para todos os outros.
No fim, talvez a verdadeira medida do poder não esteja em descobrir quem consegue impor a sua vontade. Está em descobrir quem, podendo fazê-lo, escolhe não abusar dela.
“Quem pode, pode” explica uma parte importante de como o mundo funciona. Se deve, é uma questão diferente e pessoal. Talvez a verdadeira responsabilidade comece precisamente aí: reconhecer o poder que temos e decidir, de acordo com os nossos valores, quando o devemos exercer. Pois, é isto. A vida pode não ser justa nesta medida, mas qual a medida?