Artigo de Opinião

Governação de “terra queimada”

19.08.202523:41
créditos: Patrícia de Melo Moreira - AFP/Getty Images

Desde 29 de junho (grande incêndio em Castelo Branco), passando pelos distritos de Aveiro, Porto, Viana do Castelo, Vila Real e agora interior norte e centro do país, arderam cerca de 235 mil hectares de floresta (mais de metade do que o ICNF registou entre janeiro e final de outubro de 2017), várias casas, viaturas e outros bens, evacuadas aldeias, destruídos ecossistemas.

Localidades, pessoas, autarcas abandonados à sua sorte e à falta de meios (e sorte, neste caso, parece um verdadeiro eufemismo quando até o abastecimento de água falhou).
Bombeiros e militares da GNR deixados à mercê de falhas de comunicação, de planeamento e de coordenação.
Já para não falar, com todo o respeito que qualquer vida merece, das mortes e dos feridos graves registados.

A quem governa o país, Primeiro-ministro e Ministra da tutela, pedia-se e exigia-se responsabilidade política e governativa, planeamento, preparação, ação, presença no comando, capacidade de intervenção e coordenação. Tudo o que não aconteceu… bem pelo contrário.

Houve, com o Presidente da República à mistura, um total desrespeito pelo país, pelas pessoas, pelos autarcas, pelos próprios bombeiros, militares da GNR e agentes de Proteção Civil. Uma deplorável e condenável abjeta estratégica política e governativa que anestesiou a responsabilidade e o papel do Governo em tempos de crise, só para garantir a realização da “festa partidária alaranjada” no Algarve. Em apenas 24 horas (ou menos) tudo o que foi usado como argumento sobre a importância dos meios aéreos, para o adiamento do pedido de ajuda europeia ou a interrupção de férias governativas (que se exigia e os contextos obrigavam) mudou radicalmente. Tarde e más horas, infelizmente. O agravar constante da realidade e dos cenários mantém a pressão, o terror e o sofrimento das populações, dos autarcas e dos bombeiros.

Sim… estamos em “guerra”, como referiu o Primeiro-ministro. Mas numa guerra o General não cruza a perna e se estende ao sol. Coordena, marca presença (pelo menos no posto de operações), comanda, assuma as responsabilidades que a função exige.

Sim… estamos todos muito (demasiado) cansados: as populações que vivem o flagelo, os autarcas que se sentem abandonados e vêm sofrer as suas gentes e destruídos os seus territórios, os bombeiros completamente exaustos e, algumas vezes, impotentes para a dimensão desta “guerra”, o país que, solidariamente, sofre com os seus compatriotas, as famílias que viram morrer os seus entes e as que sofrem com a incerteza dos seus feridos. E um Primeiro-ministro que ficámos a saber que se cansa muito por estar de férias.

E não, senhor Presidente da República. As críticas fazem-se no momento oportuno e preciso. As contas e os balanços essas servem para prevenir, alterar, planear e projetar o futuro, numa realidade que tem uma multiplicidade significativa de contextos (demografia, ordenamento do território e floresta, interioridade, justiça, estrutura do Estado). Esconder, calar, silenciar o presente não é aceitável perante o comportamento do Governo. Comportamento esse também político ou da falta de ética e moral políticas.
Reconhecer-se que os autarcas têm tido um comportamento político e institucional intocável e louvável, deixando de lado qualquer aproveitamento eleitoral da realidade é o mínimo que se exige perante esse notável comportamento.
Já o mesmo não podemos dizer do Governo e da extrema-direita. O aproveitamento político ou partidário do sofrimento, a dor ou a morte é, a qualquer nível ou circunstância, proibitivo e condenável. O populismo e a demagogia de cancelamento da rentrée partidária substituindo-a por uma ação, neste preciso momento, de solidariedade para com os bombeiros é o espelho do que é a falta de valores e princípios da extrema-direita.
A presença do Primeiro-ministro no funeral do bombeiro Daniel Agrelo (sim… os bombeiros também têm nome) que faleceu em serviço, depois de toda a ausência do governo durante todo este período até ao "pós-Festa do Pontal", é uma miséria institucional condenável. Felizmente teve a melhor reação por parte do povo da Covilhã: “não é bem-vindo e não merece estar aqui”.

Nem ali, na Covilhã… nem no Governo do país.