Eu adoro qualquer lugar
Quem me conhece há mais tempo, sabe que a minha dissertação de mestrado foi, de longe, um dos trabalhos que mais gostei de desenvolver. Contrariamente ao calvário que a grande maioria dos meus colegas usa para descrever este período da sua vida académica, a investigação e consequente redação da minha dissertação foi, para mim, motivo constante de aprendizagem, crítica, motivação e felicidade.
“Entre Mar e Ria – A Cultura do Mar na definição de uma nova estratégia de desenvolvimento para a Gafanha da Nazaré” foi um trabalho académico que procurou mimetizar um exercício de planeamento. E digo que procurou mimetizar, ao invés de dizer que desenvolveu plenamente um exercício de planeamento porque, quem lida com estas matérias no seu âmbito profissional, sabe que esse é um trabalho que não se desenvolve sozinho. É um trabalho que está dependente de toda uma equipa multidisciplinar, com conhecimentos especializados nas mais diversas matérias, para que seja possível uma abordagem holística aos problemas, desafios, mas também aos objetivos que se pretende prosseguir. Mas mais ainda, porque este é um trabalho que deve obrigatoriamente envolver diálogo, discussão e confronto com as várias perspetivas de quem vive o território.
Nessa altura, entre muitos autores consultados, cruzei-me com um livro chamado “A Dimensão Oculta”, escrito pelo antropólogo Edward T. Hall, que foi fundamental no desenvolvimento do meu trabalho e na linha de pensamento seguida. Resumidamente, Edward Hall defende que a cidade é muito mais do que o seu mero espaço físico. Ela depende de conceitos abstratos relacionados com a nossa perceção, as nossas vivências. A cidade é, além do espaço físico, uma “expressão da cultura do povo que a criou” e, por isso, um espaço cultural, social e imaterial. Componente esta que foi, na altura, determinante para a minha tese de que o maior motor de desenvolvimento de um território é a sua identidade. Entre outras coisas, escrevi na altura sobre a urgência de preservar o identitário, num mundo cada vez mais global onde as diferenças tendem a desaparecer.
Também na altura abordei as questões do património, da gentrificação e da construção da cidade para o turista. A ideia era a de que a cidade e o seu património estavam cada vez mais próximos de um produto de consumo rápido, muito à custa desta ideia do postal para o turista, à boleia da globalização. À data, a Covid estava longe de ser uma realidade, e já os dados apontavam para que os territórios com maior dependência do turismo e desta ideia de consumo rápido seriam territórios com menos resiliência. A “turistificação” tem alguma tendência para apagar e dissolver diferenças, transforma os lugares em meros postais, tendencialmente escondendo, apagando ou esquecendo o que é endógeno, condenando-os a ser meros cenários, objetos expositivos, numa lógica de espetáculo imediato. Chega-se, vê-se, e segue-se para o próximo, com a sensação de que não há, em nenhum lugar, nada de particularmente diferente.
A exploração dos lugares como meros bens de consumo, leva, indiscutivelmente, à perda da identidade coletiva. Se quisermos ser mais concretos, com exemplos mais fáceis de perceber, longe desta lógica académica, basta olhar para bairros típicos lisboetas, como a Mouraria, ou Alfama. A gentrificação é uma realidade, por diversos motivos, sendo os económicos os mais fortes, mas com origem em processos de uniformização, de transformação da cidade em consumível e, acima de tudo, pela adoção de políticas que publicitaram o que era a vivência identitária, endógena, da comunidade, mas que se esqueceram de a fomentar. É engraçado perceber como estes processos de publicidade e promoção do espírito bairrista e identitário levaram a que este fosse, paulatinamente desaparecendo.
Sei que estamos longe de um grande centro das Áreas Metropolitanas, mas a lógica de desenvolvimento é a mesma. A única coisa que difere é a escala e, por isso, o tempo que demora até que seja possível sentir o impacto.
Num contexto em que as cidades tendem a confundir-se, com a adoção de soluções padronizadas constantemente repetidas, é impossível reforçar a identidade. Esta vai-se progressivamente dissolvendo até que desapareça, levando com ela o conceito de comunidade.
Uma cidade, um lugar, nunca deveriam ser reduzidos a um cenário que é mais ou menos fotografável. Afinal de contas, são construções complexas, de redes que vão para lá do físico, que não deveriam caber dentro da caixa de uma fórmula gasta e repetida.
Qualquer literatura na área do planeamento sustentará a afirmação de que a preservação da identidade local é o que permitirá, a longo prazo, um desenvolvimento mais sustentável. Entendo que o desenvolvimento e a valorização do território deve partir das suas características intrínsecas, e dos seus recursos endógenos. O desenvolvimento relevante não se replica, pela simples razão de que todos os territórios são distintos. Porquê, então, aplicar medidas iguais? A valorização do que é próprio, único, do que sentimos verdadeiramente como nosso, é o verdadeiro motor de desenvolvimento e de resiliência de um território.
Numa altura em que apenas podia prever o tema de desenvolvimento da minha dissertação, escrevi nuns cadernos das aulas do Prof. Bandeirinha, algo como “as dinâmicas locais ameaçam perder-se no meio de diretrizes que procuram a uniformização”, frase essa que usei anos mais tarde nesse mesmo documento. Umas páginas antes, tenho anotado que “o todo é muito maior do que a soma das partes”, algo que também só percebi verdadeiramente anos mais tarde. Afinal de contas, não é por replicarmos várias soluções de sucesso que vamos ter os resultados esperados. O caminho para os nossos objetivos deve ser visto na globalidade, numa perspetiva transversal e holística, como um todo, e não como um conjunto de medidas avulsas. Por muito sucesso que elas possam ter tido.
As letras do Jardim Henriqueta Maia, presumivelmente em breve replicadas noutros lugares do Município, são, em termos concretos, e face ao nosso contexto, praticamente inofensivas. Funcionam como aquele naperon que, nas nossas casas, saiu do seu lugar habitual e passou para o topo de um pequeno eletrodoméstico. À partida, sem grande potencial prejudicial, mas além de um ligeiro risco de sobreaquecimento por falta de ventilação, ficamos com a sensação que não é ali que pertence.
O Ílhavo, que não é “I love Ílhavo”, mas que podia ser, não representa um problema por si só, mas pelo pensamento crítico por detrás das opções tomadas, assentes numa lógica de privilegiar o reconhecimento e o imediato ao invés do significado e do endógeno.
Entre o robustecimento de uma identidade coletiva, ou a reprodução de fórmulas globais, escolhemos, demasiadas vezes, o caminho mais simples que, tendencialmente, nos transporta para uma fórmula simplista que promove os “não-lugares”. Escolheu-se um amor de fotografias rápidas, completamente incapaz de traduzir ou de mostrar a quem chega, quem realmente somos enquanto comunidade ilhavense.
É que nem o coração parece estar no sítio certo.