Gafanha da Nazaré: que discussão para o futuro?
Começo este artigo com uma declaração de interesses, não apenas por honestidade intelectual, mas porque, no contexto político-institucional em que este debate tem sido conduzido, a transparência parece ter-se tornado um exercício seletivo. Sou da Gafanha da Nazaré, tendo o planeamento urbano e o desenvolvimento da minha cidade determinado algumas das minhas escolhas a nível académico. Estive envolvida, desde cedo, no processo do Estudo Estratégico, no âmbito da assessoria prestada ao Município de Ílhavo. Esta posição não me confere qualquer superioridade moral ou política — confere-me, somente, responsabilidade. Responsabilidade de falar quando o discurso institucional se afasta dos factos, quando a demagogia parece substituir a análise e procura instalar-se como método de intervenção política, em nome de uma suposta defesa do interesse público.
Quero, contudo, destacar, já desde o início que, neste processo, só não foi parte integrante, quem não quis.
Há umas semanas tive um almoço com amigas com quem não estava já há alguns anos. Durante várias horas falámos de muitas coisas diferentes e eu, tenho sempre algum pudor em trazer para a mesa temas relacionados com a minha área de formação. Mas é difícil que não aconteça. Porque, em algum momento, alguém vai falar de comprar casa, de fazer obras, da cidade e do contexto urbano onde vive e, muitas vezes, onde espera viver. Nesta conversa entre três amigas, uma delas disse que “a Gafanha da Nazaré envelheceu mal, evoluiu mal, na verdade”. Infelizmente, por muito que me custe, não posso discordar.
A cidade da Gafanha da Nazaré é, e será sempre, estou certa, a cidade do meu coração. Onde eu encontro os meus. Mas a cidade da Gafanha da Nazaré não é um espaço agradável para viver. A cidade da Gafanha da Nazaré é marcada por dois eixos viários, que determinaram o seu desenvolvimento urbano, que a condicionaram e, até ver, que a continuam a comprimir, numa realidade que fica muito aquém do seu potencial. Não se soube qualificar espaço público, não se soube ordenar, nem no planeamento, nem na gestão urbanística. As ações foram avulso, pouco pensadas para a globalidade e, quando pensadas dessa forma, resultaram num exercício tipicamente ultrapassado no planeamento, em que se planeou para uma densidade que, além de não fazer qualquer sentido, não acrescenta e é, sabemos hoje, totalmente utópica.
Gostava, por isso, de enquadrar e devolver alguma verdade à discussão em torno do Estudo Estratégico para o centro da Gafanha da Nazaré, fruto do meu envolvimento no processo. Ao longo do tempo, acabei por me habituar a usar a expressão em português, motivada pela correção permanente e pertinente por parte do vereador do partido socialista, ao longo do mandato 2021-2025, uma vez que, se existe na língua portuguesa uma expressão que consegue, quase na totalidade, expressar a ideia técnica vertida no conceito de “Masterplan”, é esta que deve ser usada.
Existia, como não é segredo para ninguém, uma intenção, do anterior executivo do PSD, liderado por Fernando Caçoilo, de intervencionar um troço da Avenida José Estêvão, nas imediações da Junta de Freguesia e da Igreja Matriz. Essa intenção já tinha sido expressa, na altura em que realizei a minha dissertação de mestrado, em 2017, apesar de, à data, não ter noção do projeto em causa.
Também existia uma intenção, já antiga e reivindicada pela Junta de Freguesia, de expandir o cemitério e, ainda tinha havido, há já muitos anos, um projeto, do tempo dos mandatos do Eng. Ribau Esteves, para uma nova Junta de Freguesia da Gafanha da Nazaré, que não chegou a evoluir. Esse projeto consistia na construção de um novo edifício, nas traseiras do edifício atual da Junta de Freguesia, por forma a criar uma praça voltada para a Av. José Estêvão.
A ideia subjacente ao desenvolvimento do Estudo Estratégico foi a de integrar intenções avulsas numa lógica de planeamento integrado e que contribuísse, de forma conjunta, para algo maior do que implementar a “Obra 1”, a “Obra 2”, a “Obra 3”, etc.. É isto que define uma estratégia: estabelecer pequenas ações, medidas e intervenções, que, em conjunto, contribuam para um, ou vários, objetivos maiores.
E, portanto, o anterior executivo pôs mãos à obra. Não fazia sentido colocar de parte ideias já estudadas e projetos já desenvolvidos sobre os quais a comunidade já tinha algumas expectativas. Por isso, fazia sentido que estes pudessem vir a ser âncora de algo maior, mais significativo e bem estruturado, contribuindo para dar à Gafanha da Nazaré aquilo que nunca teve, mas que muitos reivindicam, um “centro”.
Neste aspeto tenho que me desligar da componente técnica, porque a Gafanha da Nazaré tem centralidades. Mas, bem sei, que não é a questão técnica que as pessoas anseiam. Quando se quer um “centro”, quer-se um sítio onde ir caminhar, onde seja aprazível estar, um ponto de encontro, uma zona onde haja comércio, espaços verdes, e zonas de descanso, uma zona de referência que, normalmente, corresponde a um espaço público com alguma qualidade e com um grande nível de apropriação. “Olha, encontramo-nos no centro!”, é a frase que todos queremos poder dizer, como quem está em Coimbra diz “encontramo-nos na baixa” e, aqui, em complemento de um muito típico “Vamos até à borda!”. O centro, quer-se urbano, vivido, apropriado. As centralidades da Gafanha da Nazaré não são nada disso.
O trabalho começou a ser desenvolvido e, desde logo, foram convidados a participar, em sessão aberta, todos (e sublinho todos) os agentes do território: representantes de entidades, nomeadamente da junta de freguesia, de associações da Gafanha da Nazaré e do restante município, todos os membros da Assembleia Municipal, todos os membros do executivo. E, mais importante que qualquer um destes que se reveste de títulos, a comunidade. As pessoas da Gafanha da Nazaré foram chamadas a contribuir e muitos foram aqueles que se demonstraram interessados em ser parte ativa neste tema.
A sessão participativa fez notícia no site da Comunidade Intermunicipal (CIRA), nos jornais locais, nas redes sociais e, ainda hoje, é possível consultar vários textos e fotografias da mesma. Qualquer um pode ir ver, por si mesmo, quem participou. Portanto, quem hoje, e já desde há algum tempo, tenta distorcer os factos, para dizer que a sessão não foi participada, ou que a comunidade não quer nada daquilo, pode revisitar os registos e avaliar a adesão por si mesmo. E talvez também possa refletir sobre o porquê de não ter aparecido. Na minha opinião, o motivo é fácil de perceber e, tenho a certeza, não tem nada que ver com uma impossibilidade inadiável. Arriscaria ainda, que o motivo é tão frágil como o único argumento para se ser contra o Estudo Estratégico: não ser o “responsável” intelectual do resultado deste documento.
Convido, neste momento, cada um a sair da sua bolha política, da partidarite e do movimento de cidadãos eleitores, e a analisar, com olhos de ver, as propostas, construídas com a comunidade no âmbito do Estudo Estratégico para a centralidade urbana da Gafanha da Nazaré.
É precisamente neste ponto que o debate deixa de ser técnico ou político, passa a ser revelador de algo mais profundo: a dificuldade em aceitar que a construção do interesse público é um processo coletivo, que exige humildade, conhecimento e respeito pelo trabalho dos outros.
Não sei como é que é possível ser contra a expansão do cemitério, cujos terrenos estavam, em outubro de 2025, praticamente todos adquiridos.
Não sei como é possível ser contra a criação de estacionamento, numa zona central, reordenando o conjunto da área de intervenção, para promover maior equilíbrio na sua distribuição.
Não sei como é possível ser contra a requalificação do espaço público.
Não sei como é possível ser contra a criação e requalificação de espaços verdes.
Não sei como é possível ser contra a plantação de mais árvores!
Não sei como é possível ser contra a criação de percursos pedonais mais seguros.
Não sei como é possível ser contra a criação de novos percursos cicláveis.
Não sei como é possível ser contra a criação de novas frentes urbanas para colmatar e reabilitar espaços que hoje estão degradados.
Não sei como é possível ser contra definir objetivos para garantir mais construção, numa visão de conjunto, contrariando a arbitrariedade de opções avulsas e garantindo um desenvolvimento sustentável.
Não sei como é possível ser contra um espaço público mais centrado no peão, nos modos ativos, que promove a utilização do nosso meio de transporte endógeno e que nos dá um espaço de qualidade, para, simplesmente, estar.
Não sei como é possível ser contra um espaço público mais amigo dos idosos, com mais espaços para os idosos descansarem e com percursos pedonais mais curtos entre serviços públicos.
Não sei como é possível ser contra intervenções que, por princípio, cumprem todos os preceitos, boas práticas internacionais e que, a longo prazo, requalificariam a Gafanha da Nazaré de uma forma que nenhuma outra freguesia do Município de Ílhavo teve oportunidade de ser requalificada.
E não, as referências a “roteiros” de programas eleitorais não são inocentes, servem para relevar a vontade de se falar muito, conhecendo, até tecnicamente, muito pouco.
Continuo a ficar perplexa perante esta atitude, bastante recorrente, de se ignorar a responsabilidade que os eleitores confiaram. Substitui-se a exigência de se ser correto e esclarecedor, pelo fanatismo clubístico. Leva-se, frequentemente, a público, um discurso baseado em “achismos”, sem se conhecer, ter estudado os assuntos, ou fazer um mínimo esforço para se sair do campo populista. Fico perplexa com quem diz que é contra as melhores opções técnicas disponíveis, baseadas nas melhores práticas internacionais que aqui foram construídas com a comunidade, e postas ao seu serviço, para garantir uma cidade da Gafanha da Nazaré, digna da sua classificação administrativa, tão bem conseguida através do Projeto de Lei n.º 386/VII, de 2001, subscrito pelos atores que, pelo menos na minha cidade, já todos conhecemos.
Continuo a ficar perplexa contra quem diz, no fundo, que é contra o progresso, pela mera razão de não ter sido concebido, exclusivamente, pela sua cabeça. Continuo a ficar perplexa com quem diz que o trabalho técnico de pensamento para uma escala territorial mais alargada, mais bem estruturado dos últimos anos para a cidade da Gafanha da Nazaré é lixo, meramente, porque não é da sua “propriedade” intelectual.
Por muito que possamos discordar de algumas opções, do desenho em concreto, por muito que possamos achar que é mais para a esquerda, ou mais para a direita, a estrutura, a estratégia, as intenções, os princípios estão lá. Apenas assim se constrói cidade. Paulatinamente, a concretizar uma estratégia que é propriedade intelectual, em primeiro lugar, da comunidade que acedeu estar presente e construir cidade em conjunto.
Para quem tanto defendeu que as obras não são propriedade de ninguém em específico, o que me parece correto, nota-se, contudo uma grande contradição. A forma como se assume publicamente, sem qualquer pudor, um grande desconhecimento dos trabalhos desenvolvidos num passado recente pelo Município, demonstra indubitavelmente que se é refém da ideia que o Estudo Estratégico não é do Município, não é da cidade da Gafanha da Nazaré, mas é, sim, “dos outros”.
É importante não esquecer que a propriedade intelectual do trabalho desenvolvido reside, não apenas na equipa técnica que o elaborou, externa ao Município e altamente qualificada, não apenas nos técnicos municipais que se envolveram no processo e que contribuíram para o seu desenvolvimento, não apenas na visão do executivo em exercício, mas, acima de tudo, na comunidade, pela componente participativa que ditou o rumo a dar ao programa previsto.
A propriedade intelectual deste Estudo Estratégico é da comunidade que participou na sessão participativa. E nessa comunidade, incluem-se, para além dos técnicos responsáveis, municipais e da empresa prestadora de serviços, também, membros da Assembleia Municipal, membros dos diversos partidos, candidatos e não candidatos, hoje eleitos e, também, não eleitos, membros do movimento de cidadãos eleitores, candidatos e não candidatos, eleitos e não eleitos, membros das forças de segurança, do tecido associativo, dos executivos municipal e de freguesia em exercício, à data e, também, atualmente, em ambos os órgãos, e ainda, um sem número de interessados em contribuir para a construção de soluções para a sua terra.
A abordagem ao tema do Estudo Estratégico, parece-me, mais correta se for feita assim, de forma direta, sem pudor em despir uma cordialidade que, no confronto de ideias, uma parte significativa dos intervenientes do contexto político ilhavense, não merece.
A oposição, como dizia Sá Carneiro, representa um fator de progresso para o interesse comum. Ninguém evolui sem se questionar e, nessa ótica, discordar é sempre saudável. Além disso, ninguém, sozinho, possui o dom da verdade e é por isso que as soluções desenvolvidas em conjunto são, indiscutivelmente, melhores. Mas, em Ílhavo, parecemos todos desconhecer isso e continua-se a perpetuar um clubismo que é cego, populista e demagogo.
Tenhamos em mente, se possível, daqui para a frente, Mário Soares e Francisco Sá Carneiro. O primeiro, que nos ensina que “em democracia não há inimigos, mas simples adversários” e o segundo, que, além de nos dizer que a política é um problema que está para lá dos partidos (mas isso é um tema para outra reflexão), muito sabiamente disse que “democrata é aquele que pratica a democracia e não aquele que dela apenas se reivindica”.
No debate público, sobretudo em contexto institucional, a discordância não pode servir de pretexto para uma deturpação sistemática dos factos, como tem vindo a acontecer repetidamente, nem para a construção de narrativas baseadas numa falsa superioridade moral, que dispensam o confronto honesto com a realidade. O que fragiliza a democracia local não é o desacordo entre os diversos atores, mas sim a arrogância de quem se coloca acima do trabalho coletivo, da participação e envolvimento da comunidade, e até do conhecimento técnico. É preciso, cada vez mais, uma atitude de responsabilidade, de rigor e de respeito pelo processo democrático — qualidades que, como bem notou Sá Carneiro, não se proclamam: praticam-se.
Deixemo-nos pois, da retórica que quer disfarçar a demagogia, e sejamos, no confronto político, pelo menos, capazes de cumprir o requisito mínimo: sermos respeitadores.