Da liberdade ao petróleo, entre joguinhos infantis
O título é inspirado numa recente afirmação do jornalista italiano Michele Serra: «Os americanos têm muita sorte, porque onde quer que vão para levar a liberdade... encontram petróleo».
Há momentos na história em que as palavras revelam mais do que qualquer contexto ou análise política ou geoestratégica.
Quando o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sugere que novos ataques militares contra o Irão, nomeadamente na repetição de ataques à ilha Kharg (Irão), poderiam acontecer “just for fun” (só por diversão), ou quando relata, quase com leveza, que seria “mais divertido afundar navios inimigos do que capturá-los”, deixa de estar em causa qualquer racionalidade estratégica, geopolítica ou ideológica (mesmo que não seja, de todo, suficiente ara fundamentar ou sustentar qualquer guerra). O que se expõe é algo mais inquietante e perigoso: é uma visão infantilizada e pueril da guerra, tratada como espetáculo e como uma brincadeira de ‘índios e cowboys’, como uma mera manifestação de força e poder sobre os mais frágeis, como se estivesse perante um simples jogo da ‘batalha naval’, infelizmente nas mãos de quem governa uma das maiores nações do mundo.
A guerra não é um infantil jogo de tabuleiro, de roleta ou de dados, bem pelo contrário. Nunca foi. Nunca será.
É precisamente por isso que as palavras de quem ocupa a Casa Branca não podem ser avaliadas como meros exageros retóricos ou devaneios mentais.
Quando se fala de bombardeamentos e de navios afundados como se se tratasse de episódios de entretenimento, a linguagem revela uma mentalidade perigosa, jocosa, pueril, alienada, obsessiva e profundamente narcisista. A geopolítica mundial, com um lunático ao leme, tem-se transformado num palco onde um alucinado líder procura sobretudo reafirmar a própria centralidade e endeusar-se. Não é a paz que está em causa. Não é a democracia, nem a liberdade, a luta entre o ‘bem e o mal’ (seja lá quem seja o bom ou o mau), nem sequer os interesses estratégicos dos próprios Estados Unidos. O centro da equação é apenas um: o ego exacerbado de quem, perigosamente, tem o ‘comando e os botões’ na gaveta da secretária do poder.
Esse comportamento torna-se ainda mais perturbador quando colocado lado a lado com a realidade do outro lado do conflito. O regime da República Islâmica do Irão é uma teocracia onde religião, governação e poder político se confundem de forma estrutural. A instrumentalização da fé para legitimar autoridade política e repressão interna é um problema real e grave. Mas a resposta americana a esse modelo não pode ser a sua própria versão de fanatismo, ainda que travestido de patriotismo ou de retórica civilizacional. Nos Estados Unidos, a crescente influência de correntes de nacionalismo religioso dentro do poder político revela como também, ali, tal como no Golfo, a fronteira entre fé, poder e política se tem tornado perigosamente difusa e confusa.
Quando religião e poder se (con)fundem, seja de que lado for, o espaço para a razão, para a liberdade, para a democracia e para a política encolhe ou desaparece.
Não se trata de defender regimes autoritários, nem de relativizar violações de direitos humanos. Trata-se do valor da paz, do respeito pelo direito internacional e pela soberania dos povos. Nenhum país, por mais poderoso que seja ou que se intitule como tal, é dono do mundo, das nações ou, sequer, da verdade, do bem ou do mal.
A história recente está cheia de exemplos em que intervenções militares foram justificadas com argumentos aparentemente sólidos, apenas para mais tarde se revelarem frágeis, manipulados ou simplesmente falsos. Como já escrevi anteriormente no texto “Há um imperialista narcisista a espalhar…”, as justificações apresentadas para a escalada militar estão longe de constituir uma fundamentação sólida, racional e inequívoca. A guerra surge novamente como uma resposta automática, quase reflexa, perante um problema complexo que exigiria diplomacia, negociação e inteligência política.
A guerra nunca foi solução. Nunca foi, não é, e dificilmente será o meio que alguma vez justificará um fim.
No terreno, quem paga o preço são sempre os mesmos: as populações vulneráveis, sociedades inteiras empurradas para décadas de instabilidade, a alimentação do ódio, o crescimento do sentimento de vingança, da radicalização, do fanatismo e do extremismo.
É precisamente por tudo isto que se torna ainda mais importante distinguir as posições daqueles que ainda procuram preservar algum grau de racionalidade, sensatez e dignidade política. No meio de uma avalanche de demagogia, há algumas vozes europeias que procuram manter objetividade, firmeza e coerência. As posições assumidas pelo Governo de Espanha e pelo Governo de Itália, apelando à contenção, ao respeito pelo enquadramento internacional e à procura de soluções diplomáticas, revelam hoje uma lucidez que merece o reconhecimento e o aplauso… já para não falar da solidariedade e de igual compromisso.
Não se trata de ingenuidade. Trata-se de memória histórica de valorizar a paz e a estabilidade internacional.
A Europa sabe, melhor do que ninguém, o preço das guerras alimentadas por líderes convencidos de que controlam o destino do mundo. E talvez seja precisamente essa memória dolorosa, mas lúcida, que deveria continuar a lembrar algo que alguns parecem ter esquecido: quando a guerra é tratada como um brinquedo ou um divertimento, quem paga o preço nunca é quem carrega no botão.