Fazer de conta, que não se percebe , ou pior não perceber mesmo
Á algo de profundamente revelador no debate público atual: sempre que alguém condena um ato objetivamente condenável, surgem imediatamente vozes que tentam desviar o foco, politizar o evidente ou criar falsas equivalências onde elas simplesmente não existem.
Quando um cidadão, e ainda mais o Presidente de uma Câmara Municipal, condena atos de vandalismo sobre património público, está apenas a fazer aquilo que qualquer sociedade minimamente organizada espera dos seus representantes: defender o interesse comum, o respeito pelo espaço público e o dinheiro dos contribuintes. Condenar vandalismo não deveria sequer ser matéria de debate político. É uma obrigação moral e institucional.
No entanto, assistimos frequentemente a comentários que procuram misturar alhos com bugalhos, insinuando questões paralelas apenas para criar ruído político. Pergunta-se, por exemplo, se as câmaras de vigilância servem para proteger património ou pessoas. A própria pergunta já contém a resposta: servem para proteger ambos. E, mais importante ainda, servem para identificar quem pratica atos criminosos, sejam eles contra bens públicos ou contra cidadãos.
No caso concreto da Rua da Seca, na Gafanha da Nazaré, o Presidente da Câmara, Rui Dias, falou de vandalismo sobre luminárias recentemente instaladas e sucessivamente furtadas ou destruídas. Não falou de “vandalização de pessoas”, porque felizmente ela não ocorreu. Tentar encontrar falhas de enquadramento numa declaração simples e objetiva revela apenas uma vontade permanente de contestar, mesmo quando o bom senso aconselharia precisamente o contrário.
Chega-se ao ponto de transformar qualquer medida de segurança num debate ideológico. A videovigilância, quando enquadrada pela lei, autorizada pelas entidades competentes e aceite pela comunidade, é hoje uma ferramenta normal em qualquer sociedade moderna. Pode existir em ruas, praças, edifícios públicos ou zonas sensíveis, exatamente para prevenir criminalidade, proteger pessoas, proteger património e ajudar as autoridades na identificação de responsáveis.
Aliás, poderíamos ter muito mais zonas do município abrangidas por sistemas de vigilância, desde que dentro da legalidade e desde que os munícipes entendam que vale a pena investir nisso. E muitos provavelmente entenderiam, sobretudo quando começam a perceber quanto custa reparar, substituir ou reconstruir aquilo que repetidamente é destruído por uma minoria irresponsável.
O que verdadeiramente preocupa não é alguém condenar vandalismo. O preocupante é existir uma predisposição quase automática para ser “contra”, independentemente do assunto. Contra porque sim. Contra porque a iniciativa partiu de determinado executivo, de determinado presidente ou de determinada força política. E quando a política desce a esse nível, deixa de ser construção coletiva para passar a ser mero exercício de oposição permanente.
Defender o património público não é desvalorizar as pessoas. Pelo contrário. O património público existe precisamente ao serviço das pessoas. Cada luminária destruída, cada equipamento vandalizado, cada espaço degradado representa dinheiro que deixa de poder ser investido noutras necessidades da comunidade.
Há momentos em que o país, os municípios e as comunidades locais ganhariam mais se houvesse menos ruído político e mais capacidade de reconhecer o óbvio: vandalismo é vandalismo, crime é crime e condená-lo não devia ser polémico.