Toblerone
Toblerone,
Quando um patudo é abandonado na rua, sem microchip que o identifique, fica despido também de nome. Assim foi o caso que agora conto.
Mas há sempre alguém quem esteja disposto a dar-lhe um novo. E a pessoa especial que o fez e com quem muito aprendi, um pouco gulosa ao que sei, chamou-lhe Toblerone, já lá vão praticamente dois anos. Foi o que lhe ocorreu ao ver a forma física do canídeo e a sua beleza doce, quase deslumbrante. Fiquei marcada por aquele olhar da “madrinha”.
São muitas as vezes em que um nome acerta em cheio naquele que foi nomeado. A embalagem é bela, apelativa, mas, no final, o que conta é o que está dentro. E o que está dentro tem de ser descoberto, por vezes pouco a pouco, desfrutando de cada momento.
O Toblerone, entrou no CROACI como tantos outros, mas ainda jovem. Passado o trauma do abandono e da captura, o processo de descoberta e aprendizagem, retirando pouco a pouco a tal embalagem, revelou e permitiu desfrutar da sua alegria e inocência. Alegria e inocência que deitavam por terra qualquer preconceito acerca dos cães de raças potencialmente perigosas.
Pois essa é a verdade. Tal como poderia estar escrito nas embalagens dos chocolates, "potencialmente perigoso", também o Toblerone transportava com ele uma etiqueta desse tipo. Pois, é isso mesmo, um puro Pit Bull Terrier.
Apesar da juventude a corpulência e mandíbulas já impunham respeito! Mas os olhos pequeninos e meigos traziam à luz a sua carência de afetos e a meiguice, por vezes abrutalhada.
O Toblerone, à medida que as semanas avançavam, foi perdendo alguma da sua alegria contagiante e entusiasmo. Confinado, a maior parte do tempo, à sua pequena jaula, revelava a ansiedade no ladrar repetido, quase choro… um Pit Bull chorão. Saudades da sua antiga vida e de quem o abandonou.
Mais triste mas sempre meigo, gentil e expectante – por cada carícia, cada biscoito e por cada olhar de afeto de quem ali trabalha.
Como podemos imaginar – e bem – não é fácil adotar um Pit Bull. Não sei se o Toblerone sabia disso, mas eu mantive a esperança. E o quase milagre aconteceu - uma família que visitou o CROACI apaixonou-se por ele e adotou-o.
Não sei se o registou como Toblerone. Mas qualquer que seja o nome na coleira e no microchip, para mim será sempre o da mistura doce do chocolate que, se controlada, nunca é perigosa
Nota de rodapé
O Pitt Bull Terrier, é um canídeo de "Raça Potencialmente Perigosa", pelo que a sua adoção teve de obedecer a inúmeros critérios de triagem e avaliação do adotante, plasmados no DL nº315/2009, de 29 de Outubro:
- O tutor é obrigado a ser portador de uma formação de treinamento de cães, facultada pela Guarda Nacional Republicana ou pela Polícia de Segurança Pública e deverá ter o registo criminal imaculado;
- o tutor tem de ser portador de Seguro de responsabilidade civil, entre outras responsabilidades legais.
- o tutor deve dispor de uma habitação com as características obrigatórias na lei, por questões de segurança de terceiros e evitar a fuga do cão. - os muros devem ter pelo menos 2 metros de altura e deve conter afixada placa informativa da presença do cão.
Os cães desta raça eram treinados para lutas ferozes até à morte que já não existem legalmente na maioria dos países.Não obstante, o Pit Bull Terrier, pode ser um cão simpático, meigo, pacifico e sociável, conseguindo criar laços de confiança e afeto com o tutor.