As Redes Sociais e a vida real
As redes emalham.Invariavelmente, tirando raríssimas excepções a redes sociais mostram a vida como um espelho invertido. Os mais infelizes mostram a sua felicidade de foram efusiva, os mais felizes são mais contidos.Com as forças políticas muitas vezes se passa o mesmo. E por isso vivemos numa época em que existe uma enorme tendência para transformar números das redes sociais em previsões políticas. Seguidores, gostos, visualizações e partilhas são frequentemente apresentados como indicadores quase científicos da força de um projeto ou da popularidade de uma liderança. No entanto, a realidade é muito mais complexa do que aquilo que os algoritmos conseguem medir.
É natural que uma página com mais seguidores desperte atenção. Pode significar que gera interesse, curiosidade ou capacidade de mobilização. Pode até ser um sinal positivo para quem a gere. Mas entre o interesse demonstrado numa rede social e a decisão tomada numa cabine de voto existe uma distância abismal.
As pessoas acompanham projetos, movimentos, instituições e figuras públicas por razões muito diferentes. Algumas porque concordam, outras porque discordam, outras porque querem estar informadas. Há quem acompanhe várias forças políticas em simultâneo, quem mude de opinião ao longo do tempo e quem nem sequer utilize as redes sociais como fator relevante na sua decisão eleitoral.
A política local, em particular, continua a ter características muito próprias. O contacto direto, a reputação pessoal, o trabalho desenvolvido ao longo dos anos, a capacidade de resolver problemas concretos e a confiança construída junto da população continuam a pesar muito mais do que qualquer métrica digital. Quem vive uma comunidade sabe que as conversas nas associações, nos cafés, nas empresas, nos mercados ou entre vizinhos continuam a influenciar muito mais do que aquilo que acontece num ecrã.
Por isso, olhar para números isolados e tentar retirar deles conclusões definitivas pode ser um exercício perigoso. Um projeto pode ter grande dinamismo nas redes sociais e não conseguir transformar esse entusiasmo em votos. Da mesma forma, pode existir um apoio silencioso e discreto que quase não se reflete no mundo digital, mas que se manifesta de forma clara quando chega o momento da decisão.
Há ainda uma diferença importante entre notoriedade e apoio. A notoriedade mede a atenção que algo desperta. O apoio mede a confiança que as pessoas depositam num projeto. As duas coisas podem coincidir, mas nem sempre coincidem. Muitas vezes, quem gera mais comentários ou mais interações não é necessariamente quem recolhe mais confiança.
No fundo, a política continua a ser uma atividade humana e não matemática. Os eleitores não são números, nem algoritmos. São pessoas com experiências, preocupações, expectativas e opiniões que evoluem ao longo do tempo. Reduzir essa complexidade a uma contagem de seguidores é esquecer tudo aquilo que realmente influencia uma escolha eleitoral.
Talvez por isso seja prudente olhar para estes indicadores com interesse, mas também com alguma distância. Podem revelar tendências, despertar curiosidade ou alimentar análises, mas estão longe de constituir uma verdade absoluta. Afinal, até as sondagens, que utilizam metodologias científicas, amostras representativas e modelos estatísticos sofisticados, falham frequentemente nas suas previsões. Se até essas erram tantas vezes, por maioria de razão devemos evitar retirar certezas a partir de métricas que, embora visíveis e fáceis de medir, representam apenas uma pequena parte da realidade, difícil de medir e muito menos de poder dela tirar qualquer conclusão. Eu tenho 3100 seguidores no Facebook e 763 seguem-me. Qual a conclusão para alem desta se pode tirar? Mais nenhuma.