Artigo de Opinião

Quando os Princípios Precedem as Alianças

01.06.202620:32
Se não for assim. difícil é chegar a bom Porto

Quando os Princípios Precedem as Alianças

Na vida pública, fala-se muitas vezes de lealdade. Menos vezes se fala daquilo que a deve anteceder: os princípios.

Quem exerce funções autárquicas numa coligação sabe que a confiança entre as pessoas é um dos pilares da boa governação. Sem confiança, cada decisão transforma-se numa negociação permanente. Sem respeito mútuo, a energia que deveria ser colocada ao serviço dos munícipes perde-se em disputas internas e em cálculos de conveniência.

Mas a confiança verdadeira não nasce da obediência. Nasce do reconhecimento de que cada pessoa possui valores sólidos, caráter próprio e capacidade para decidir de acordo com a sua consciência.

Enquanto independente eleito numa coligação, vejo a lealdade não como uma obrigação cega, mas como um compromisso consciente. Um compromisso com um projeto comum, com uma equipa e com uma visão para o município. Uma lealdade construída sobre o respeito e não sobre a submissão.

A amizade pode aproximar pessoas. A confiança pode fortalecer equipas. Mas nenhuma delas deve substituir aquilo que é essencial numa governação responsável: a independência de pensamento e a fidelidade aos princípios.

Quando aceitamos responsabilidades públicas, deixamos de representar apenas aqueles que pensam como nós. Passamos a representar todos os munícipes. É perante eles que existe o dever maior. É a eles que devemos explicações. E é o seu interesse que deve prevalecer sobre qualquer outra consideração.

Isso não significa viver em permanente divergência. Pelo contrário.

A maturidade de uma coligação mede-se precisamente pela sua capacidade de integrar pessoas diferentes que partilham valores fundamentais. Pessoas que podem ter percursos distintos, sensibilidades próprias ou formas diferentes de abordar os problemas, mas que convergem no essencial: fazer o que consideram melhor para a comunidade.

Por isso, a independência não deve ser vista como um fator de instabilidade. Deve ser entendida como uma garantia adicional de seriedade. Uma garantia de que as decisões não resultam de alinhamentos automáticos, mas de reflexão, convicção e responsabilidade.

Teoricamente, pode sempre existir um momento em que a minha consciência me leve a uma posição diferente da dos restantes membros da coligação. Se esse dia chegasse, preservaria a minha independência, porque os princípios não são negociáveis.

Mas essa é, felizmente, uma reflexão mais teórica do que prática.

Ao longo deste percurso, tenho encontrado pessoas cuja integridade, sentido de serviço público e compromisso com o concelho coincidem com aquilo em que acredito. É precisamente essa convergência de valores que torna possível uma relação de confiança duradoura.

Nas autarquias, as amizades podem existir. E muitas vezes existem. O que não pode existir é a confusão entre amizade e dever público.

Os amigos merecem respeito. Os colegas merecem lealdade. Mas os munícipes merecem sempre prioridade.

Quando os princípios vêm primeiro, a confiança cresce naturalmente. E quando a confiança assenta em valores partilhados, a independência deixa de ser um problema para se tornar uma das maiores forças de uma governação responsável.

Porque as melhores alianças não são aquelas onde todos pensam exatamente da mesma forma. São aquelas onde todos partilham o mesmo sentido de missão.