Os portugueses dignificaram os valores democráticos e da República
Estas eleições presidenciais, muito concretamente esta segunda volta eleitoral, lançaram um claro desafio, exigente, aos portugueses. E os portugueses, como está no seu adn democrático, principalmente desde 1974, demonstraram uma enorme maturidade política, democrática e, fundamentalmente, cívica, mesmo nas maiores adversidades, num permanente desassossego e aflição.
E responderam de forma categórica, sem qualquer margem para as mais ténues dúvidas.
Entre o risco de um retrocesso político, civilizacional e social, entre o risco do enfraquecimento e declínio da democracia, os portugueses, de forma categórica e esmagadora (o segundo maior resultado de sempre, apenas atrás de Mário Soares, em 1991) escolheram preservar e defender a democracia.
Não alinharam, numa demonstração de maturidade cívica e democrática, na infantilidade e no populismo do anti-socialismo. Mais de 3 milhões de portugueses “anti-socialistas”, socialistas, da direita moderada, do centro ou da esquerda, disseram sim à democracia, disseram sim à valorização e dignificação do papel presidencial e do seu papel no equilíbrio das instituições e o garante constitucional.
Há outros dados relevantes.
1. Os portugueses mobilizaram-se, cumpriram o seu direito cívico, na maior das adversidades, apesar do valor da abstenção ter rondado os 50%, mas, mesmo assim, não muito longe do valor da primeira volta.
2. Estando em causa a escolha apenas entre dois candidatos, o valor percentual é irrelevante, sendo significativo e importante o valor absoluto de votos.
3. António José Seguro mais que duplica a sua votação da primeira volta, iniciou este percurso eleitoral com cerca de 6% das intenções de votos, quase que alcança o número (absoluto) de votos do PSD e PS juntos alcançados nas legislativas de 2025 e supera claramente o resultado do Partido Socialista, na maioria de 2022.
É este o claro e inquestionável “valor” da democracia em Portugal: 70% dos portugueses ainda acreditam nos valores de Abril e nos princípios republicanos da democracia e do humanismo.
4. André Ventura sai derrotado, duplamente derrotado. A diferença esmagadora para António José Seguro é inquestionável. E numa eleição presidencial só há um vencedor.
Por outro lado, a tal badalada e desejada liderança da direita sai manifestamente furada: a conquista, apenas – e sublinho – apenas de mais cerca de 350 mil votos em relação à primeira volta (ou cerca de 300 mil votos em relação ao resultado do partido nas legislativas de 2025) é muito, mas mesmo muito, poucachinho. Não chega para superar a diferença de votos para os resultados de Cotrim de Figueiredo, de Marques Mendes e de Gouveia e Melo, na primeira volta.
5. Um outro dado curioso é o valor significativo de votos em branco, mais do dobro do número registado na primeira volta (166 mil, contra 62 mil).
6. A nota para um outro perdedor das eleições presidenciais: Luís Montenegro. Uma derrota que começou pelo descalabro eleitoral da candidatura de Marques Mendes (candidato oficialmente apoiado pela AD – PSD/CDS) e que ficou confirmada com a neutralidade pífia e balofa em relação à segunda volta, colocando-se (mais uma vez) nas mãos e na pressão política da extrema-direita. A democracia não deve, nem pode ficar refém de estratégias político-partidárias, de silêncios e ambiguidades, de jogos eleitoralistas de poder.
Uma incoerência política e partidária que não é aceitável, nem compreensível (felizmente, os portugueses, nomeadamente os eleitores da AD, souberam ultrapassar) quando, na qualidade de Primeiro-ministro, assumiu o apoio formal e partidário ao candidato Marques Mendes.
Menos compreensível foi a comunicação feita ao país, em plena noite eleitoral presidencial – repito, presidencial, num conteúdo propagandista lamentável do que, aliás, não tem sido a atuação, nem a ação governativa atual.
Em conclusão… estas eleições presidenciais, volvidos 50 anos depois das primeiras eleições presidenciais após o 25 de Abril (que elegeram o general Ramalho Eanes) foram um exemplo de maturidade democrática, o espelho que a literacia política de cerca de 70% dos portugueses é considerável e significativa, uma resposta cívica enorme dos portugueses.
Parabéns, Portugal.