Artigo de Opinião

A Caixa de Pandora do ano 2026... e do mundo de hoje

05.01.202611:02
venezuela vs usa

Os meios raramente justificam os fins, mais ainda quando os fins são, em si mesmo, são manifestamente duvidosos, cinzentos e perigosos.

Com a invasão da Ucrânia, em 2022, e o final da crise pandémica, imaginou-se um novo desenho na geopolítica e uma nova ordem internacional.
Com o segundo regresso de Donald Trump à Casa Branca e à Administração dos destinos da denominada maior potência mundial, assistimos, no final do primeiro ano de mandato, a uma nova e perigosa desordem mundial e a um desmoronar dos principais valores, princípios e pilares da democracia e de qualquer Estado de Direito.
A par disso, a nobreza do exercício governativo de um povo e de uma nação, e a arte política sustentada na ética, na justiça, no bem comum, na igualdade e na fraternidade é, desde 20 de janeiro de 2025, uma página virada na democracia americana, substituída pela mercantilização pura dos princípios e valores da política e da democracia.

O que se passou, nestes dois últimos dias, na Venezuela não é, nem pode ser aceitável. Aliás, só pode e deve ser condenada e criticada.
Sob razão nenhuma, sob qualquer argumento ou justificação válidos, Donald Trump e a Administração Norte-americana têm a mínima legitimidade para atropelar o Direito Internacional, rasgar a Carta das Nações Unidades (nomeadamente o artigo 4.º), desafiar a soberania de qualquer outro Estado independente e autoproclamarem-se como os detentores da verdade, da salvação, do bem ou da razão. Até porque, objetivamente, não o são.

Isto não é uma questão de ideologia, de direita ou de esquerda. Não vale a pena entrar por essa dicotomia, porque nada disso está em causa com este posicionamento norte-americano. Até porque esta região do globo está carregada de exemplos e de histórias políticas e governativas de cada um dos lados dos extremismos (basta recordar as ditaduras militares no Chile de Pinochet, na Argentina, no Brasil ou no Uruguai).
Não se pode deixar de reconhecer que o regime vigente na Venezuela (que não culminou com esta “invasão” americana à sua soberania) é ditatorial, repressivo e opressor para os venezuelanos, e tinha como rosto principal Maduro. Esta é a realidade que há vários anos muitos condenam e criticam.

Agora… ninguém deu legitimidade e autoridade institucional, jurídica, militar ou política para as intervenções discricionárias perpetuadas por Trump e pela sua Administração.
Agora… não há o mínimo de intencionalidade democrática, da reposição da liberdade, da defesa dos direitos humanos e das liberdades na Venezuela.
O que há é a abertura de uma “Caixa de Pandora” perigosa, pulverosa, explosiva (basta olharmos para as reações dos países da região, mesmo o insuspeito Chile que recentemente virou politicamente à direita) que coloca em causa a segurança internacional dos povos e das nações, muito para além da América Central e da América do Sul.
Que coloca em causa toda a tentativa de salvar a Ucrânia da invasão Russa (agora se percebe a proximidade de Trump a Putin, porque os valores e os princípios societais se aproximam).
Que coloca em causa toda a diplomacia e a pressão que tem sustido a intervenção da China em Taiwan.
Que deixa claro que as ameças veladas proferidas por Trump em relação ao Canadá, ao Panamá ou à Gronelândia não são ficção científica, nem realidades paralelas do cosmo.
E percebe-se também que as “24 horas” para terminar uma guerra e uma invasão se transformaram em quase 365 dias de “braço dado” e de “companheirismo pessoal” com Putin.
E a história americana, nomeadamente na região sul americana e no Caribe, está pejada de maus exemplos que espelham a interferência externa dos Estados Unidos. Já para não falar no Afeganistão ou no Iraque.

Os Estados Unidos da América estão hoje (desde o início de 2025) muito mais perto de uma autocracia eleitoralista, de um imperialismo marcado pela razão da força (e não pela força da razão) do que a tal democracia robusta que muitos querem e tentam fazer crer, erroneamente.
Não foi a opressão, a pobreza, o atropelo dos direitos humanos, as perseguições, a ausência de liberdade, o regime ditatorial que nortearam a ação americana. E muito menos o surrealismo e a narrativa pífia sobre narcotráfico (apesar do flagelo que é o negócio da droga na região… e não é só na Venezuela). Essa foi a demagogia a que Trump recorreu para a cobertura (mesmo sem legitimidade) da operação.
As palavras foram do próprio presidente dos Estados Unidos: “vamos ganhar muito dinheiro com o petróleo da Venezuela”. E são apenas os interesses económicos e materiais da Administração Trump (nem são os do povo americano) e daqueles (empresas) que são o suporte financeiro da sua eleição e da sua manutenção no poder.
Não há qualquer empatia de Trump com a democracia, os seus princípios e valores. Basta recordar a invasão ao Capitólio, o desrespeito, desconsideração e desvalorização pelas instituições do Estado americano, desde a Justiça até ao próprio Congresso (Senado e Câmara dos Representantes), ou pela separação dos poderes democráticos e pela própria Constituição.
O que Trump pretende é que as empresas (suas amigas e da Administração) americanas explorem, para seus proveitos próprios, o petróleo das águas venezuelanos.
Se fosse pela democracia, pela contestação a um regime ditatorial e opressor, Trump não tinha deixado o Afeganistão no estado em que deixou (via Biden), interviria na Coreia do Norte, nos regimes autocráticos em África e onde os direitos humanos são espezinhados diariamente (Sudão à cabeça, entre muitos outros) ou nos regimes teocráticos do Médio Oriente. Não o faz porque não traz dinheiro, material, valor, não para a América, mas sim para o seu ciclo pessoal e particular.

Ao contrário dos que, com a legitimidade de quem vive ou fugiu da ditadura, gritam “liberdade”, o que estas horas têm demonstrado é que o preço da liberdade tão desejada é a subjugação ou submissão a um novo imperialismo e neocolonialismo dos tempos modernos, a exploração de uma nação e dos seus recursos, privando o povo da sua soberania, da sua independência e da sua (outra) liberdade. É a subordinação e a dependência à vontade e caprichos de um país terceiro para quem o mundo é gerido como um complexo turístico, um resort, um campo de golfe ou uma entidade financeira. E sabemos bem, pelas últimas décadas na Venezuela, o resultado que a capitalização e materialização dos recursos venezuelanos deram.

O que Trump e a sua Administração pretendem, e têm como foco no novo desenho geopolítico, é pulverizar o globo com “Estados fantoches”, subjugados às suas necessidades, com governos submissos aos seus interesses, independentemente da sua tipologia de regime, se são autocracias ou democracias, sendo que, neste último caso, até se torna uma chatice e um incómodo contratempo.
O que já se suspeitava, tornou-se, neste fim de semana, uma realidade: os valores e pilares da democracia e da liberdade, seja nos Estados Unidos ou no mundo estão, objetivamente, em perigo.

O início de 2026 trouxe uma péssima realidade: o mundo está mais perigoso, menos seguro, menos estável, menos livre e menos democrático. Aos rostos (líderes) do “costume” junta-se, agora, o mais perigoso de todos: Donald Trump.