Artigo de Opinião

Não são invasores. São pessoas.

23.08.202622:42
créditos: 7Margens, via Religión Digital

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De Lampedusa a Ceuta, do Mediterrâneo a Almería, a Europa continua a lavar as mãos como Pilatos.

Há momentos em que não conseguimos - e não devemos - ficar calados. E já vai longo (desde março) o meu ‘silêncio’ (por manifesta falta de tempo… só isso).
O que está a acontecer em Ceuta, o recente desembarque no sul de Espanha, em Almería, e a forma como estes acontecimentos estão a ser explorados politicamente obrigam-me a tomar posição.
Não para fazer mais um comentário sobre imigração. Não para repetir números. Não para discutir a questão migratória como se ela pudesse ser reduzida a fronteiras, barcos, polícias ou desembarques.
Mas sim porque revolta a forma como, perante uma realidade humana profundamente complexa, alguns insistem em construir uma narrativa baseada no medo, no pânico, na mentira e no ódio.
E também porque não é aceitável que os populismos e os extremismos consigam transformar seres humanos em inimigos sem que se diga, alto e bom som: Não são invasores. São pessoas.
Pessoas que chegam depois de percursos que nós, muitas vezes, nem sequer queremos conhecer. Pessoas que atravessaram países, desertos, guerras, redes de tráfico, exploração, fome, violência e medo. Pessoas que, muitas vezes, escolheram o risco da morte porque a alternativa era permanecer num lugar onde essa mesma morte, a fome, a violência ou a ausência de futuro já eram uma realidade.
É isto que o discurso populista deliberadamente apaga.

Lampedusa continua viva na memória e na história
Em abril de 2025, na FNAC Fórum Aveiro, tive a honra e o orgulho de poder apresentar ou partilhar algumas palavras com a Ana França sobre o seu mais recente livro: Lampedusa - Ir e não chegar, editado pela Tinta-da-China. Foi uma daquelas experiências que ficam e que marcam.
Na altura escrevi sobre isso no “Debaixo dos Arcos” (em edição no extinto Sapo blogs) e continuo a considerar que aquele livro deveria ser de leitura obrigatória para quem pretende falar seriamente de imigração. Não apenas porque conta uma história ou é o espelho (o resultado) de um excelente trabalho jornalístico. Mas porque nos obriga a olhar para as pessoas. Para as suas histórias e realidades. Para os seus sonhos e medos. Para os seus mortos e sobreviventes. Para aquilo que existe antes do Mediterrâneo, a que já se chamou, tantas vezes, de cemitério.
Na altura da apresentação destaquei aquilo que considerei (e considero) serem três compromissos fundamentais presentes no livro da Ana França: Pessoas/Causas, Memórias e Verdade. Acima de tudo… pessoas e verdade.
Hoje, perante Ceuta, esses três compromissos continuam absolutamente atuais:
- Pessoa, porque não podemos esquecer que por detrás de cada número existe uma vida;
- Memória, porque não podemos permitir que os mortos do Mediterrâneo desapareçam das nossas consciências assim que deixam de ser notícia. Ou mesmo a atual tragédia humanitária de Ceuta;
- Verdade, porque não é aceitável que a realidade seja substituída pela propaganda, pela mentira, pelo ódio, pela sobranceria de haver superioridade racial (ou mesmo de haver raças).
E é precisamente por isto que me lembrei de Lampedusa e porque é que continua a ser tão importante e presente. Porque Lampedusa não terminou em 2013.
O Mediterrâneo continua a ser uma das grandes fronteiras da desigualdade mundial, continua a haver pessoas que fogem e que morrem, traficantes que lucram, famílias que esperam, governos que discutem números e políticos que transformam sofrimento humano em narrativa eleitoral.

A imigração não começa numa praia do sul da Europa mediterrânica
Esta é, talvez, a primeira grande mentira que importa combater. A migração não começa quando alguém chega a uma praia europeia ou ao muro da fronteira do México com os Estados Unidos.
Começa muito antes. Começa na origem, no país de origem. Numa aldeia. Na guerra. Na pobreza. Na fome. Na perseguição. Na ausência de trabalho. Na falta de futuro. Na corrupção. Na violência. Nas alterações climáticas que criam novos fluxos migratórios. Começa nos territórios que ficam muito longe das câmaras e do mediatismo da televisão que acompanham os desembarques.
É isto que Lampedusa - Ir e não chegar obriga a pensar. A viagem não começa no barco. O barco é apenas uma das últimas etapas. Antes dos barcos, dos camiões, estão os desertos. Estão as redes de tráfico. Estão os centros de detenção. Estão as violações de direitos humanos. Estão as guerras. Está a exploração da geoeconomia atual. Está o medo. E, muitas vezes, está uma escolha brutal: ficar e aceitar uma vida sem esperança ou partir e arriscar a própria vida.
Em vez da pergunta tão surreal quanto obscena “Porque é que veio?”, talvez fosse melhor perguntar: “Porque é que teve de partir?”. É uma pergunta muito mais incómoda, porque nos obriga a olhar para aquilo que está por detrás dos fluxos migratórios ilegais.

A palavra “invasão” não é inocente
No presente contexto de Ceuta – e de outros tantos que a história nos recorda - há palavras que não são apenas cargas semânticas metafóricas ou hiperbólicas: “Invasão”, “Enxurrada”, “Maré humana” ou as mais politicamente gastas “Portas escancaradas” ou “Imigração descontrolada”.
Tudo isto constrói uma narrativa e essa narrativa tem um objetivo: transformar pessoas numa ameaça. Primeiro tenta-se retirar a individualidade e a condição humana. Depois retira-se a história. E, por fim, o sentido humanitário. Deixamos de falar de uma mulher, de um homem, de uma criança, de uma família. Passamos a falar de “eles”. E quando já existe um “eles”, é muito mais fácil construir um “nós”: nós contra eles; nós, os bons; eles, os perigosos; nós, os que temos de defender a nossa terra; eles, os que nos querem invadir. É assim que se constrói o medo e é assim que o populismo e o extremismo cresce.
Não é aceitável esta narrativa. Não é aceitável que a xenofobia seja apresentada como preocupação legítima. Não é aceitável que o racismo seja embrulhado em argumentos de segurança. Não é aceitável que o ódio seja vendido como patriotismo. E não aceitável que a política possa normalizar esta linguagem sem resistência.

As famosas “portas escancaradas”
Nesta temática da migração há uma expressão que se tornou quase obrigatória no discurso populista: “portas escancaradas”.
É uma falácia. As portas nunca estiveram, nem estão escancaradas: existem regras, legislação e normas. Existem polícias e sistemas de vigilância, barreiras regulamentares e legais, centros de detenção e deportações, acordos de readmissão. Existe uma política europeia cada vez mais centrada no controlo das fronteiras. E existem milhares de pessoas que, precisamente porque não encontram caminhos legais e seguros, acabam entregues às redes de tráfico humano.
É esta a enorme contradição. Ao fecharmos as portas que são legais, reguladas e vigiadas, aumentamos os riscos, empurramos as pessoas para as redes criminosas.
Depois culpamos quem tenta atravessar e perguntamos por que razão chegaram “ilegalmente”. É uma pergunta profundamente hipócrita quando, quase sempre, a porta que se diz legal, segura e controlável, simplesmente não está disponível para quem mais precisa dela, não tem qualquer mecanismo de proteção ou possibilidade real de pedir ajuda sem arriscar a vida ou cair nas mãos da criminalidade das redes.

A Europa - e Portugal - diz que não quer imigrantes. Mas precisa deles.
E aqui encontramos outra enorme contradição. A Europa envelhece. Os nossos territórios envelhecem. A população ativa diminui. Faltam trabalhadores em setores específicos e fundamentais: agricultura, construção, turismo e hotelaria, cuidados de saúde primários ou continuados. A própria União Europeia reconhece a existência de importantes carências de mão-de-obra e a necessidade de mobilizar trabalhadores migrantes para responder aos desafios demográficos e económicos.
Então, afinal, em que ficamos? A Europa não quer imigrantes? Há uma coisa que me parece cada vez mais evidente: há quem, porque precisa, queira o trabalhador imigrante, mas não queira necessariamente o imigrante como cidadão. Queremos que trabalhe, que pague impostos, contribua para a sustentabilidade (que é mesmo sustentável) da Segurança Social, que limpe, construa, cuide, produza e mantenha setores inteiros da economia a funcionar. Mas depois queremos que permaneça invisível, que não incomode, não reclame, não peça direitos que lhe são legítimos (assim com as obrigações e deveres), que aceite salários baixos e precariedade, que aceite viver em condições indignas. Isto tem um nome: exploração humana.

Mas não é apenas a migração que está em causa
Esta discussão é também sobre o modelo de sociedade que estamos a construir e a vivenciar. Uma sociedade onde a habitação se tornou um ativo financeiro, onde a saúde e a educação podem ser negócio, onde se pretende que o trabalho seja cada vez mais precarizado, onde a pessoa seja valorizada pelo que produz e não pela sua dignidade. O migrante acaba por ser a expressão mais extrema desta mercantilização. É valorizado quando é útil e rejeitado quando é incómodo. É desejado quando falta mão-de-obra e demonizado quando chega sem contrato.
O trabalhador interessa. O ser humano incomoda. É esta contradição que é preciso denunciar. E isso é profundamente incompatível com uma sociedade que se diz democrática e defensora dos direitos humanos. Ou até mesmo com os valores do cristianismo que tantos hipocritamente proclamam e arrogam.

África não começou a ser pobre ontem
Há ainda uma outra questão que raramente aparece no discurso sobre imigração. A história.
Não podemos olhar para África como se a pobreza, a instabilidade e a desigualdade tivessem aparecido por acaso. Não podemos esquecer o colonialismo. Não podemos apagar séculos de exploração. Não podemos ignorar a extração exploratória de recursos. Não podemos esquecer fronteiras desenhadas segundo interesses externos. Não podemos ignorar as relações económicas profundamente assimétricas que continuam a existir. E não podemos fingir que a disputa contemporânea pelos recursos naturais africanos não tem consequências: petróleo, gás, diamantes e matéria e minerais raros… recursos essenciais para a economia global.
A Europa, os Estados Unidos, a China, a Rússia e outras potências têm interesses geopolíticos e económicos em África. É uma realidade. E não podemos falar de migração sem falar da geopolítica.
É óbvio que é absurdo cairmos na simplificação de dizer que todos os problemas de África são responsabilidade europeia. Não são.
Existem governos corruptos, elites predatórias, conflitos internos, escolhas políticas erradas. Existem responsabilidades próprias.
Mas também existe uma responsabilidade histórica e contemporânea do mundo rico. E não podemos apagá-la porque é incómoda. Não podemos explorar e saquear os recursos de um continente e depois fingir surpresa quando as consequências humanas das desigualdades criadas chegam às nossas fronteiras.
Talvez seja por isso que o Mediterrâneo seja tão incómodo, porque funciona como um espelho.
Quando olhamos para aquelas pessoas que chegam às nossas praias, vemos também o mundo que construímos. Vemos a desigualdade, a guerra, a exploração, a pobreza, a incapacidade de responder às causas profundas. E vemos também a própria hipocrisia de uma Europa que fala de direitos humanos, de democracia, de dignidade, de solidariedade, mas que, tantas vezes, prefere pagar a outros para fazer o trabalho sujo de impedir que os migrantes cheguem. É a política do: “não quero ver, logo não existe.”
Não é assim que funciona. O sofrimento não desaparece porque deixamos de o ver. A morte não deixa de existir porque acontece longe. A responsabilidade não desaparece porque a fronteira foi empurrada para sul. E lavar as mãos como Pilatos não transforma ninguém em inocente: o tráfico humano não se combate culpando a vítima.
As redes de tráfico humano são criminosas, são violentas, exploram pessoas desesperadas, ganham dinheiro com a esperança. Devem ser combatidas com toda a força da lei. Não podemos combater o tráfico culpando as suas vítimas. É precisamente a ausência de alternativas seguras que dá poder aos traficantes. Quanto mais fechamos as vias legais, maior é o poder das redes clandestinas. Quanto mais perigosa é a travessia, maior é o preço humano. Quanto maior o desespero, maior a capacidade de exploração. É uma equação perversa.
Há quem diga que este assunto exige equilíbrio. Concordo. Mas equilíbrio não significa colocar no mesmo plano os direitos humanos e o discurso de ódio. Podemos discutir regras, capacidade de acolhimento, segurança, integração, imigração irregular, pressão sobre os serviços públicos. Devemos discutir tudo isso. Mas que essa discussão nunca seja construída sobre a desumanização, que se diga que defender direitos humanos é defender “fronteiras abertas”, que combater o racismo seja ser “contra a segurança”, que denunciar a xenofobia seja ser “contra o país”.
A democracia tem fronteiras, regras, pode controlar entradas, deve combater o tráfico, pode expulsar quem não tem direito legal a permanecer, cumprindo a lei e respeitando os direitos fundamentais. Mas a democracia, a verdadeira liberdade, igualdade e fraternidade, não pode transformar seres humanos em inimigos.
É por isso que Ceuta preocupa. Não apenas pelo que está a acontecer no terreno, mas pela forma como está a ser instrumentalizado, perante uma situação humanitária grave, perante pessoas em condições precárias, perante crianças e famílias vulneráveis, perante mortes.
O populismo precisa de um inimigo e de ser fortemente combatido.
Porque é mais fácil apontar o dedo do que resolver problemas. A habitação está cara? É o imigrante. Os salários estão baixos? É o imigrante. Os hospitais estão pressionados? É o imigrante. Há criminalidade? É o imigrante. Falta emprego? É o imigrante. Os serviços públicos estão degradados? É o imigrante.
A política do medo é uma escolha. Não tenhamos ilusões. O medo não aparece sozinho. É produzido, amplificado, explorado, transformado em valores de audiência da comunicação social, transformado em cliques, em votos. As redes sociais, a desinformação, o palco mediático, as imagens sem contexto e a mentira ajudam. E o resultado é uma sociedade cada vez mais convencida de que está permanentemente ameaçada.
Hoje é o migrante. Depois será outra minoria. Depois outra. E outra. Porque o mecanismo é sempre o mesmo: criar um “eles” para fortalecer um “nós”. É um mecanismo velho. Perigoso. E profundamente antidemocrático.

Porque isto não é apenas sobre imigração
É sobre que sociedade queremos ser. É sobre que Europa queremos construir. É sobre aquilo que fazemos quando encontramos alguém mais vulnerável do que nós. É sobre aquilo que fazemos quando a pessoa que está à nossa frente nasceu num lugar diferente. É sobre aquilo que entendemos por direitos humanos ou se estes direitos dependem do passaporte.
A dignidade humana, a vida, a liberdade, o direito a não morrer à fome, o direito a não ser torturado, o direito à proteção… não têm nacionalidade.

Depois de Lampedusa, já não podemos dizer que não sabíamos
É talvez esta a maior marca que Lampedusa deixou.
Depois de conhecermos aquelas histórias, já não podemos dizer que não sabemos.
Sabemos. Sabemos que há pessoas que morrem no Mediterrâneo. Sabemos que há pessoas que atravessam desertos. Sabemos que há redes de tráfico. Sabemos que há guerras. Sabemos que há fome. Sabemos que há exploração. Sabemos que há desigualdade. Sabemos que há responsabilidades. Sabemos que há hipocrisia. Sabemos! E quando sabemos, a indiferença deixa de ser ignorância e passa a ser escolha.

Eu escolho não ficar calado
Não sou neutro perante o racismo, a xenofobia, o discurso de ódio, a desumanização, quando o sofrimento de pessoas é transformado em instrumento eleitoral, quando o populismo e o extremismo tentam convencer-nos de que defender os direitos humanos é uma fraqueza. Podemos defender fronteiras sem abandonar a humanidade, ter regras sem ter ódio, ter segurança sem racismo, combater o tráfico sem perseguir as vítimas, discutir imigração sem transformar o imigrante em inimigo.
A hipocrisia está em lavar as mãos como Pilatos, fechar as portas e depois culpar quem chega pela janela. O populismo precisa do medo e do ódio. A política sem humanidade precisa de transformar o migrante em inimigo. Mas nenhum barco que chega a uma praia começa ali a sua história. Antes dela estão a guerra, a fome, a exploração, o tráfico, a corrupção, a desigualdade, o colonialismo, a geopolítica e os interesses económicos de um mundo profundamente injusto.

Não são invasores. São pessoas. Uma Europa que retira à realidade o valor da humanidade para defender as suas fronteiras, perdeu aquilo que sempre disse querer defender: os valores que estão nos seus alicerces existenciais e societais.