Há um imperialista narcisista a espalhar o caos e o terror no mundo
Premissa
Para que não haja qualquer dúvida de posicionamento e para colocar, já, de lado os argumentos de “eles são isto” ou “eles são aquilo” ou as críticas ou acusações de incoerência no meu ativismo (sempre) na defesa dos direitos humanos…
1. O regime de Teerão é uma abominável teocracia, sem qualquer laivo ou indício de democracia ou de direitos humanos, nomeadamente das mulheres, e estruturado numa tirania assassina. Ponto. Não há qualquer forma de defesa ou empatia.
2. Excluindo, de forma objetiva, a legitimidade de defesa perante uma agressão, nada – nada, mesmo - pode ou deve justificar uma guerra. Ela não é, em si mesma, um fim. Nunca deverá ser, por isso, um meio para justificar qualquer fim.
3. A religião e, por conexão, a fé, são contextos e conceções individuais, não são, nem podem ser, imposições coletivas e normativas. São experiências emotivas e dogmáticas individuais e pessoais, mesmo que vivenciadas comunitariamente. Não podem ser imposições societais ou normativas/regulatórias.
Por outro lado, não há qualquer legitimidade, nem fundamentação racional e objetiva que determine a verdade religiosa sobre qualquer outra crença. Não há a “minha religião é melhor que a do outro”, “só existe o ‘meu’ Deus” ou “só a minha religião é que é a boa, a verdadeira… a dos outros, a dos infames, não tem valor”. A vivência em sociedade, as relações coletivas, regem-se pelos valores comuns, pela aceitação do que é comunitário. E não pela imposição de “estados de alma” de cada um.
Posto isto…
Depois da ameaça na primeira passagem pela Casa Branca (de 2017 a 2021), eis que o início de 2025 mostrou-nos como a governação daquele que era denominado como o país mais livre e democrático do mundo se pode transformar, num ápice, num exercício narcisista de poder; no retrocesso aos imperialismos da história universal dos séculos XVIII e XIX; na substituição dos valores e princípios fundamentais da ordem internacional pela desordem e pelo caos gerados pela conflitualidade bélica; na minoração da liberdade e da soberania dos povos e das nações; na desvalorização e humilhação dos direitos humanos; na captura dos valores da democracia e da nobreza da política pela mercantilização das vivências, dinâmicas e relações nacionais e/ou internacionais.
Percebo a legitimidade da euforia das cidadãs e dos cidadãos iranianos exilados e refugiados pelo mundo com este ataque ao coração do regime do Irão. É a licitude da esperança numa mudança, no sonho pela liberdade e felicidade na sua terra natal. Mas afigura-se mais como uma ilusão do que como uma hipotética realidade.
Não há qualquer sustentação válida, qualquer argumento objetivo e sustentado que legitime este desígnio de autoproclamação como “justiceiro universal". Trump não tem qualquer visão ou missão democrática, qualquer foco na defesa valores dos direitos humanos ou está, minimamente, preocupado com o atual regime, mais que autocrático (ultrateocrático) iraniano.
Esta ofensiva, há muito anunciada, só tem dois propósitos (aos quais podemos acrescentar um objetivo ‘colateral’ na política interna norte-americana).
Começando pelo fim, a taxa de aceitação e popularidade de Trump está em níveis tão deprimentes que importa desviar o foco do elevado custo de vida que tem afetado milhões de americanos, o desastre da política anti-imigração e a responsabilização da Administração Obama pela política externa em relação ao Médio oriente que justifique o rasgar de todas as promessas e compromissos eleitorais feitas em 2017 e em 2025 que proclamavam o fim e o abandono de ações militares norte-americanas no exterior.
A velocidade da luz terá dificuldade em acompanhar esta reviravolta de 180º entre o sonho e ardente desejo pelo Nobel da Paz, a um dos líderes mundiais que mais instigaram ao conflito armado internacional e à guerra. Basta um piscar de olhos.
O primeiro objetivo centra-se na alimentação da obsessão criminosa de Netanyahu para o controlo e afirmação sionista (não confundir com semitismo ou judaísmo) na região com vista à ocupação de Gaza pelos interesses económicos dos diretos apoiantes da Administração e de Trump.
O segundo objetivo não tem qualquer preocupação com o Irão, com o seu povo e com o regime bárbaro instalado. A razão é geoestratégica, assente numa desmesurada e inqualificável sede de poder, num narcisismo ‘kafkiano’, sem qualquer fundamento político ou ideológico (que em Trump é, aliás, sinónimo de vazio cósmico) e tem como foco a obsessão pelo confronto e hegemonia em relação à China.
Foi assim, recentemente, na Venezuela (como exemplo), é assim em relação às rotas comerciais (e não, como ilusoriamente se quer fazer crer, por razões de segurança) que circunscrevem a Gronelândia, e é assim, hoje, em relação ao Irão, forte aliado comercial da China.
E não há, houve ou haverá, qualquer outro ‘nobre’ valor para esta condenável e deplorável ação unilateral de Donald Trump para atacar o Irão que não seja, ao arrepio de qualquer norma e direito internacional, das instituições internacionais (como a ONU ou a própria NATO) e das cartas e acordos assinados, a de satisfação egocêntrica e megalómana do exercício do poder e da demonstração da força. Principalmente com os vulneráveis, com os submissos (basta ver a lista dos 29 países que, há cerca de duas semanas, consagraram o imperialismo vitalício de Trump à frente de um surreal e perigosíssimo “Conselho de Paz”, que espelha, tão bem, o nosso velho ditado “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és) com os que a atual inqualificável Administração Americana consegue controlar e enfrentar.
Não vale a pena a narrativa do perigo nuclear. Não que ele não exista, obviamente, mas porque ele é inconsistente, infundado e incoerente. É tão perigosa uma arma nuclear nas mãos iranianas, como norte-coreanas, russas, paquistanesas, indianas, israelitas e, até mesmo, pela amostra do que hoje vivenciamos, nas mãos norte-americanas. Isso é cobardia discursiva.
Se o dito programa nuclear iraniano é um perigo mundial, então espera-se que para a semana os Estados Unidos ataquem a Coreia do Norte, a Rússia ou a China.
Se o regime de Teerão é bárbaro e dantesco, espera-se que para a semana os aviões que descolam da Base das Lajes possam também descolar para apoio aos ataques aéreos contra o regime da Arábia Saudita ou de alguns regimes asiáticos ou africanos.
Se o problema é a defesa da democracia e da liberdade, então espera-se que já amanhã o atual presidente dos Estados Unidos apresente a sua demissão e deixe o lugar da Casa Branca a quem ainda vá a tempo de recuperar esse desígnio de liberdade e democracia no país que a história tentou (se é que alguma vez o terá conseguido) “identitar” como o mais livre, mais liberal e mais democrático à face da terra.
O que não se deseja… o que não se pode aceitar (porque nada o legitima)… o que se condena… é que o mundo esteja nas mãos de um perigoso imperialista narcisista que torna, a cada dia que passa, este pedaço esférico num lugar cada vez mais carregado de ódio, de caos e de sangue.
E numa guerra que vai sobrar para todos: para a instabilidade e conflitualidade regional, para os impactos económicos mundiais, para a desordem internacional e, acima de tudo e principalmente, para as vidas de todos os que forem apanhados pela mira das armas.