Investigadores da UA propõem forma mais realista de avaliar o ruído do trânsito.
Medir, de modo mais fidedigno, o ruído do tráfego rodoviário, um dos maiores riscos ambientais para a saúde na Europa logo a seguir à poluição atmosférica, é o objetivo de um estudo de investigadores do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO) e do Centro de Tecnologia Mecânica e Automação (TEMA) da Universidade de Aveiro.
O estudo foi publicado em acesso aberto na revista “Sustainable Mobility and Transport”, integrada na série “npj” (Nature Partner Journals).
O estudo, intitulado "Improving Vehicle Sound Power Estimation for Road Traffic Noise Models", responde a um desafio concreto para a mobilidade sustentável.
Os métodos habituais de avaliação do ruído foram concebidos para condições de circulação simples e já não acompanham a transformação tecnológica da frota nem a forma como os carros circulam de facto na cidade.
O que muda com esta abordagem? Em vez de captar o ruído de um veículo num único instante, como quem tira uma fotografia, a equipa propõe descrevê-lo ao longo de toda a passagem, mais próximo de uma filmagem.
O método assenta na potência sonora média do veículo numa zona de referência e preserva a informação acústica distribuída ao longo do percurso, em vez de a reduzir a um valor pontual.
Em condições de velocidade constante, os resultados revelam elevada consistência com os métodos convencionais. O maior potencial, porém, está noutro lado: a metodologia foi concebida para ser usada em situações de forte aceleração e travagem, tão frequentes no trânsito urbano e mal representadas pelas métricas atuais.
O estudo identifica ainda limitações de outras métricas, como a sensibilidade ao ruído de fundo em baixas velocidades e a curta duração da passagem em velocidades mais elevadas.
"Os veículos em meio urbano raramente circulam a uma velocidade constante.
Ao descrever a passagem completa do veículo, e não apenas um instante, representamos de forma mais fiel o ruído que as pessoas ouvem no dia a dia e conseguimos modelos mais úteis para quem decide onde e como intervir", explica Antonio Pascale, investigador do DAO e do TEMA.
Na prática, esta abordagem abre caminho para modelos e mapas de ruído mais fiéis ao trânsito real. A médio prazo, pode melhorar as curvas de emissão utilizadas nesses modelos, apoiar a avaliação do impacto da eletrificação da frota e oferecer informação mais robusta para o planeamento urbano e a definição de medidas de mitigação.
Pode ainda interessar a municípios, entidades gestoras de infraestruturas rodoviárias, empresas de consultoria ambiental e de engenharia, bem como à indústria automóvel, nomeadamente fabricantes de veículos elétricos e híbridos, e a empresas do setor da mobilidade elétrica interessadas em avaliar as emissões sonoras associadas às novas tecnologias de propulsão.
Poderá também inspirar ensaios mais próximos das condições reais de condução, em alternativa aos testes de aceleração máxima, que suscitam problemas de segurança e não representam adequadamente o tráfego das cidades.
O trabalho resulta de uma colaboração entre a Universidade de Aveiro e a Universidade de Salerno, em Itália, reunindo investigadores com competências em acústica ambiental, ciência dos transportes e modelação do ruído: Antonio Pascale (UA – DAO e TEMA), Claudio Guarnaccia (Salerno) e Margarida C. Coelho (UA – DAO e TEMA).
Mais de 110 milhões de europeus estão regularmente expostas a níveis prejudiciais de ruído, o que, todos os anos, contribui para milhares de mortes prematuras, doenças cardiovasculares e perturbações persistentes do sono. Reduzir esta "poluição invisível" é uma das prioridades do Pacto Ecológico Europeu e do Plano de Ação para a Poluição Zero.
Texto e foto: UA