Gloria Steinem: há mortes que não silenciam
A notícia obriga-nos, antes de tudo, a falar de uma perda para o feminismo, para os direitos das mulheres e para a luta pela igualdade. Mas obriga-nos também a falar de outra perda: a perda para o jornalismo.
Gloria Steinem morreu num tempo particularmente difícil para quem ainda acredita que o jornalismo deve servir alguma coisa mais do que audiências, cliques, algoritmos, interesses económicos e agendas de poder.
Vivemos tempos de queda. Em muitos casos, de autêntico abismo da comunicação social. E nada disto é, infelizmente, novo ou de hoje.
Há demasiado ruído e pouca informação. Demasiada velocidade e pouca investigação. Demasiada opinião disfarçada de notícia e pouca notícia capaz de resistir à opinião. Demasiada dependência dos poderes e poucos jornalistas dispostos a incomodá-los.
Por isso, recordar Gloria Steinem é também recordar aquilo que o jornalismo pode e deve ser.
Jornalista, escritora e ativista, Gloria Steinem não se limitou a observar o mundo. Entrou nele. Investigou-o. Questionou-o. Confrontou-o.
O exemplo mais emblemático aconteceu em 1963. Infiltrou-se no Playboy Club de Nova Iorque e trabalhou como uma das célebres “coelhinhas” da Playboy. Não para aparecer. Não para construir uma personagem. Mas para investigar.
A reportagem revelou aquilo que a imagem glamorosa escondia: as condições de trabalho e a exploração das mulheres.
Isto chama-se jornalismo. Ir onde outros não vão. Ver o que outros não querem ver. Perguntar o que outros preferem que não seja perguntado.
Mais tarde, Gloria Steinem tornou-se uma das grandes referências da segunda vaga do feminismo norte-americano. Em 1972, cofundou a revista Ms., uma publicação que ajudou a mudar profundamente a forma como as mulheres eram tratadas ou ignoradas pelos meios de comunicação social.
E é importante lembrar isto: muitas das questões que hoje parecem óbvias (mesmo que desvalorizadas ou menosprezadas) não o eram na altura.
Falar publicamente de discriminação, violência contra as mulheres, desigualdade salarial, assédio sexual, direitos reprodutivos ou autonomia feminina não era consensual. Era incómodo. E continua a ser hoje, até para algumas mulheres.
Gloria Steinem ajudou a demonstrar que aquilo que durante décadas foi tratado como um “problema das mulheres” era, afinal, um problema da sociedade.
Porque uma democracia que discrimina parte (uma grande parte) da sua população não é uma democracia plena. Uma economia laboral que paga de forma desigual não é justa. Uma política onde as mulheres continuam sub-representada e desvalorizadas s não é verdadeiramente representativa. E uma sociedade que tolera a violência contra as mulheres não pode apresentar-se como civilizada e desenvolvida.
A desigualdade não desaparece porque deixamos de falar dela (ou assobiamos para o lado). Pelo contrário. O silêncio é, muitas vezes, o seu melhor aliado… num tempo em que assistimos ao crescimento de discursos misóginos. Num tempo em que direitos conquistados são postos em causa. Num tempo em que há quem queira transformar novamente a igualdade numa discussão ideológica… como se a igualdade não fosse um princípio democrático elementar.
E também num tempo em que o jornalismo enfrenta uma das suas maiores crises, se não a pior.
Não é apenas uma crise económica ou de sustentabilidade. É uma crise de identidade, de valores, de missão e de princípios: o jornalismo corre o risco de esquecer para que existe. E para sermos mais honestos e justos… acrescente-se ao jornalismo muitos dos jornalistas e de profissionais ligados à comunicação (por exemplo, nas assessorias).
Num mundo em que há cada vez mais informação e, paradoxalmente, cada vez mais dificuldade em encontrar a verdade, precisamos desesperadamente de um jornalismo revisitado, reabilitado, corajoso e uma sociedade de vozes ativas.
A sua morte deixa um vazio societal e idealista significativo. Mas deixa, também, uma responsabilidade coletiva: continuar a fazer perguntas, a incomodar, a investigar, a recusar o silêncio.
As desigualdades contra as quais lutou continuam vivas… e enquanto continuarem vivas a sua luta continuará a ser necessária.
Porque perante as injustiças, a ausência de liberdade e o ataque à democracia, o silêncio nunca é neutral, é quase sempre uma escolha. E, muitas vezes, uma escolha perigosa a favor de quem tem poder.