Todos os dias o Tôcas, sentado por detrás da porta da rua, espera ansioso pelo seu amigo.
Enquanto aguarda, arrepiam-se os seus bigodes. Como sempre acontece, sente uma enorme comichão no seu nariz bolachudo, que vai coçando com a pata.
As suas orelhas erguem-se atentas a cada ruído.
A cauda esvoaça como uma pluma sem controle, como num turbilhão!
É como que a cauda falasse: - Vá lá, está na hora de chegares e mais que na hora para o nosso passeio de fim de tarde.
É então que o seu corpinho peludo treme de ansiedade e antecipação porque já pressente o odor e os passos, bem conhecidos, que se aproximam. Ladra e gane com a alegria contagiante de quem sabe que a espera insuportável está a chegar ao fim.
O Amigo abre finalmente a porta e pergunta: - Estás bem Tôcas? Que tal foi o teu dia?
A resposta foi óbvia. Como que atingido por enorme relâmpago de carinho o Tôcas rodopiou como um pião, arrastando a cauda numa vertigem louca.
O momento aproximava-se. Atento e expetante o Tôcas vê o Amigo vestir-se a preceito para passear. Com ele, claro! Sapatilhas favoritas, roupa confortável onde sobressai um incrível casaco vermelho, qual capa do Super-homem.
Para não destoar, o Tôcas parece um Super-cão. Capinha e peitoral vermelhos e trela a condizer.
E aí vão, juntos e sem destino, qual dupla fantástica de banda desenhada. O Amigo em passo calmo e o Tôcas deslizando as suas patinhas de canino sénior caminham rumo a nova aventura inesquecível.
A nortada, fresca e forte, arrasta para junto deles todos os perfumes salgados vindos do mar ali perto. Na verdade, o Tôcas adora o mar e sabe distinguir, pelo cheiro, de que quadrante veem as ondas. E lá vão indo como se voassem nas nuvens brancas que pintam o céu da tarde, mais parecendo as barbas do Pai Natal.
Como sempre faz quando passeiam, o Amigo trouxe consigo os biscoitos favoritos do Tôcas e um pouco de água, sempre úteis e necessários em cada uma das paragens.
Numa dos primeiros intervalos da caminhada os olhos argutos do Tôcas perscrutam os do Amigo, avinhando cansaço e alguma tristeza, vá-se lá saber porquê.
Se o Tôcas pudesse falar diria, virado ao Amigo: - Olhos tristes, mais silêncio e menos sorrisos. O teu dia deve ter sido difícil, Mas, com a minha alegria, em breve estarás curado e feliz!
Vou encher-te de mimos e lambidelas e verás que o teu stress passa com a velocidade do TGV. O meu coração será o teu refúgio e arrecadar-te-ei nele com a força de um gigante.
Assim, mais adiante, o Amigo já sorri virado ao Tôcas enquanto passa as suas mãos delicadas sobre o seu pêlo.
A caricia nunca é redundante. Quando acontece é única, unindo quem a dá e quem a recebe. É um calmante. É uma linha colorida unindo dois seres.
Regressam a casa cansados e quase exaustos, mas felizes e maravilhados. Esta não rotina cria uma alegria tranquila, mas do tamanho do universo.
É hora da banhoca do Amigo. O Tôcas espera por ele deitado no sofá. Espera também pelo que virá a seguir – a refeição bem merecida. Espera pacientemente porque sabe quão importante é a paciência em qualquer relação.
A tranquilidade e o brilho dos olhos do Tôcas levam-me a crer
Que tem um amigo imaginário -talvez um coelhinho sábio que lhe ensina tudo o que precisa para que seja feliz, principalmente estar bem junto do seu dono. Juntos a sério!
E assim estiveram muitos anos…
Não sei se o Tôcas criou e ensinou gaivotas a voar, como fez o gato Zorbas de Luís Sepúlveda, mas decerto poderia fazê-lo.
O Tôcas já partiu para o paraíso dos patudos.
O Amigo não o esquece, tal como eu, que o conheci.
Marta Azevedo
Tratadora do CROACI e Auxiliar de medicina veterinária.