As bancadas com representação na Assembleia Municipal de Ílhavo dividem-se na avaliação à atividade municipal nos primeiros meses de mandato entre uma visão que acentua a “substância” do projeto e outra desconfiada da prevalência do “marketing político”.
Essa foi a dicotomia que atravessou todo o debate na segunda sessão da Assembleia Municipal de Ílhavo no ponto dedicado a analisar a atividade municipal dos últimos três meses.
A maioria que governa a autarquia defende que são três meses que vieram confirmar a existência de “liderança” e “rumo” mas para quem passou pelo poder e, agora, lidera a oposição há mais marketing do que verdadeira inovação.
Dois blocos formados com posições diversas e um tema a dominar a sessão.
Os planos para a educação que, segundo o movimento independente Unir para Fazer, centram muita da sua base nos programas já existentes.
Rui Rufino fala em operação de marketing político embrulhada sob a designação de ano municipal da educação.
Nota que a “carta de bordo” tem atividades com propostas que já eram realizadas em mandatos anteriores.
“Muitas eram anteriores ao nosso mandato. Para marketing não está mal”, refere Rui Rufino que estima em cerca de 90% a percentagem de medidas transitadas.
Áreas como os festivais temáticos, abertura do ano letivo, atividades nas bibliotecas e eventos surgem agora enquadradas numa programação integrada.
O deputado que é docente avisa que na educação o “espaço de intervenção do Município tem limites bem definidos” cabendo às escolas e às estruturas do Ministério da Educação a estruturação do trabalho.
Rufino nota que a nova maioria é especialista em sugerir que não faz propaganda “fazendo propaganda”.
Pinto Reis reforçou a visão do movimento que lidera a oposição levantando questões sobre a distribuição de competências no executivo e deixando reparos sobre o que entende ser a “confusão entre esfera partidária e esfera municipal”.
Ideia transmitida a propósito do programa de governo e programa eleitoral.
O deputado municipal diz que os dois planos devem ser assumidos sem confusões sob pena de afastar forças políticas não retratadas no plano de atividades.
Análise surgiu a propósito do “roteirómetro”, ferramenta digital que permite acompanhar a execução das propostas do programa eleitoral, agora sob a forma de plano de atividades.
Encontra ainda “falta de preparação dos membros do executivo na preparação das reuniões” e a existência recorrente de temas de interesse público levados a reuniões privadas e pontos retirados das agendas.
“Falta de preparação e falta de domínio dos assuntos”, conclui Pinto Reis que encontra nos propalados momentos de escuta pública momentos de “esvaziamento de tensões”.
As interações entre a maioria e as forças de oposição confirmam que o tom muda de acordo com a proveniência das críticas.
O PS acabou por levar a debate questões idênticas mas a “cortesia” do discurso e o tom abriram caminho a “respostas empáticas”.
Pinto Reis nota a existência de um tom mais crispado com o UpF, em particular com a sua pessoa, e fez questão de o referir diretamente a Rui Dias.
“A sobranceria com que se dirige à minha pessoa pode continuar. A mim atinge-me que eu quero”.
A bancada socialista dividiu-se entre elogios ao esforço de inovação na comunicação e críticas ao conteúdo programático.
Pedro Martins nota que esse esforço de trazer algo novo à ação política mas longe das novidades anunciadas em campanha.
“Destacaria o ano municipal da educação como aquilo que mediaticamente sobressai. Não temos nada de substancialmente novo. Há um novo programa de educação steam mas de resto são programas e obras que chegam do mandato anterior. Mas na verdade não vimos nada de novo. Mais de 90% é o que vem de trás”.
O vogal socialista elogiou a organização das matérias do relatório sobre a atividade municipal.
O autarca de Ílhavo centrou atenção na educação e respondeu a quem diz não existir grande novidade.
Rui Dias admite que há trabalho de base mas também passos rumo ao futuro.
E qualquer que seja a dimensão do passo será relevante na qualificação de um setor considerado nevrálgico para o Município.
“Fez referência que 90% das ações do plano já se fazem há uma década. É bom perceber que em 2 ou 3 meses conseguimos revolucionar 10% das ações que se desenvolviam aqui”.
Destaca a integração de políticas em torno da educação “compilando e sistematizando formatos de partilha de conhecimento”.
O autarca ironiza com o discurso de quem receia a escola de pais.
E se o tom é mais áspero para o UpF, o autarca manifesta abertura para ouvir o mesmo mas com outras vozes e outras palavras.
Regista a “elegância do PS” e lembra que “educação é diferente de escolarização”.
“Não tentamos substituir-nos ao Ministério e aos professores. Estamos a compilares ferramentas”.
Rui Dias aponta para um projeto que está a dar os primeiros passos.
“Muitas das ferramentas estão a começar. É como uma viagem grande. Os primeiros kms são uma chatice”.
Realça o Roteirómetro como forma de monitorizar a execução do plano onde são acomodadas as grandes apostas apresentadas ao eleitorado.
“O roteirómetro tem medidas que não são apenas nossas. Ali estão obras que os senhores dizem ser vossas”.
O tom voltou a ser mais crispado com o UpF desafiando Pinto Reis a elencar a reunião em que alegadamente teriam sido retiradas dezenas de pontos da ordem de trabalhos. “Tem que me dizer qual foi a reunião”.
Exercícios de auscultação pública como o realizado na Gafanha da Boavista sobre a ponte da Vista Alegre mereceram referência do autarca que desmente estar apostado em esvaziar focos de contestação.
“Não vou esvaziar tensões. Vou para ouvir e dizer a verdade. E a que tenho para dizer por vezes não é a que as pessoas querem ouvir”.
Quanto aos partidos que suportam a maioria foram declaradamente elogiosos.
António Pinho, do CDS, ironizou com algumas declarações em torno dos méritos que cabem a cada executivo.
A presença do Ministro da Educação na cerimónia de lançamento do ano da educação e os receios de uma visão ideológica ou programática para o setor e a autoria das obras em curso nas escolas foram temas abordados pela bancada do CDS que recusa a ideia de uma assinatura parada no tempo.
Em tom irónico falou da angústia de ouvir discursos que indiciam que o Município poderia “estar a entrar numa era totalitária” ou num perigoso plano de reeducação”.
Pinho elogia o primeiro documento de prestação de contas e a transmissão de uma “ideia do poder sob controlo” reforçada pela “transparência” colocada na comunicação nas redes sociais e jornais no balanço aos 100 dias.
“A transparência na prestação de contas é louvável enquanto compromisso”.
Depois de 4 anos a criticar João Campolargo pela falta de informação aos deputados municipais, a bancada do PSD diz que Ílhavo volta a ter “comunicação objetiva” sobre a ação municipal.
Margarida Alves realça o papel da nova liderança política.
“É como os barcos. Um barco sem leme é uma desgraça. Temos uma equipa, um líder”.
A vogal social democrata assinala a distribuição de tarefas entre membros do executivo como “bem definida” e considera que dizer o contrário é “abordagem pouco séria”.
“Foram apresentadas 24 medidas e 13 estão executadas e a fase de execução inclui o bem estar animal”, destaca Margarida Alves em referência a temas que vinham do mandato anterior.
Elogia a forma como tem sido gerida a questão da ponte da Vista Alegre e a gestão dos dias de tempestade.
“Toda a ação não foi propaganda. Vi o trabalho feito nas madrugadas de tempestade. Houve sentido de missão”.
Em diferentes vozes do PSD ouviram-se elogios à “aposta na educação como opção política”.
“Aposta na ciência merece destaque. É fixar talento e promover mobilidade social”.
Sérgio Lopes, do PS, iria a uma segunda ronda para analisar a mensagem sobre o ano municipal da educação.
“O que a maioria apresenta é, na verdade, um cardápio de uma compilação do que a Câmara faz historicamente. São ações com mais de uma década na vida diária”.
Quanto ao roteirómetro admite que pode ser um exemplo se bem usado.
“Defendemos que deve haver instrumento de reforço da transparência. Mas isso deve ser feito com menos narrativa e mais dados objetivos. De outra forma pode configurar-se como instrumento de propaganda”.
No final, Flor Agostinho resumia a clivagem entre protagonistas de dois períodos da história recente na política ilhavense com uma frase sobre a “doutrina” de cada força política no decurso dos exercícios de poder e na forma como enquadra o conceito de propaganda.
“O povo soube reconhecer que lavagens ao cérebro não são admissíveis na vida concelhia”.