Ílhavo de luto pelo falecimento de João Senos da Fonseca, aos 86 anos, vítima de doença prolongada.
O engenheiro mecânico que viria a transformar-se num dos principais estudiosos da cultura marítima faleceu esta terça-feira.
Da história da laguna à abertura da barra, a origem dos Ílhavos, passando pelo barco moliceiro e pelo património material e imaterial da laguna, do edificado à sociedade ilhavense, foram inúmeros os objetos de estudo tendo a Faina Maior como um dos seus temas prediletos.
Senos da Fonseca deixa um legado de documentos escritos e planos de desenho náutico sobre embarcações da laguna.
Uma das obras marcantes foi dedicada ao Moliceiro ainda antes da classificação como património da UNESCO.
Sobre este ex-libris da ria de Aveiro revelou a sua história e apresentou modelo do primeiro Moliceiro, disponibilizando acesso a ficheiros para CAD, com a construção desta embarcação secular em 3D.
Conhecido também pelo gosto em torno do desenho, faz parte de roteiros de arquitetura depois de ter assinado a sua própria casa datada de 1976.
É uma das imagens de marca da Costa Nova.
O engenheiro mecânico, especialista em engenharia naval, aventurou-se no desenho de arquitetura para construir uma casa singular, com traços de uma embarcação.
A voracidade do tempo colocou Senos da Fonseca numa corrida contra o tempo para escrever sobre os diferentes temas em particular sobre a presença dos Ílhavos no litoral português.
Trabalhou ao lado de Rui Bela em projetos audiovisuais premiados tendo a temática marítima em pano de fundo.
E marcou presença em inúmeros eventos dedicados à temática marítima de norte a sul do país destacando-se como voz de peso em eventos da Sociedade de Geografia.
Para a história fica a sua tese de que a pesca do bacalhau nos mares da Terra Nova começou no século XV contrariando teses que apontavam para o século XVI.
Foi dirigente associativo em várias coletividades destacando-se o CASCI que ajudou a fundar e cuja presença foi importante em momentos de crise, Illiabum, Bombeiros e Clube de Vela da Costa Nova.
Marcou presença como ativista político nunca deixando de manifestar as suas posições e os seus anseios para os municípios de Ílhavo e Aveiro.
Numa das publicações fez a defesa de um Plano de Urbanização abrangendo a zona ribeirinha, entre Aveiro e Ílhavo, da Ponte da Água Fria à Coutada, criando nova centralidade na Malhada e a criação de condições para instalar um Parque Desportivo Municipal/Multiusos, Fórum ou outro na antiga “Seca Abreu” (Pascoal) à entrada da cidade de Ílhavo.
A criação de espraiados lagunares no Rio Boco, o tratamento urbano de toda a zona ribeirinha, desde a Gafanha da Boavista à ponte da Gafanha da Nazaré, a abertura do Boco a passeios lagunares tendo por base o esteiro da Malhada, com programas de visitas ao Museu Vista Alegre e Museu Marítimo de Ílhavo, a criação de um Museu da Ria e das Artes Lagunares e a construção de uma réplica de um lugre bacalhoeiro de madeira recuperando a história da construção naval da Gafanha da Nazaré surgiram como algumas das propostas da abertura ao turismo lagunar.
O Clube de Vela da Costa Nova já reagiu à notícia lembrando um homem que inspirou gerações.
“Ao longo de várias décadas, João Manuel Senos Nunes da Fonseca inspirou gerações através da sua intervenção criativa e inovadora quer se trate da sua atividade profissional, quer seja através da sua participação em diferentes instituições, onde liderou sempre com uma marca que perdurou no tempo e que é lembrada por todos que com ele se cruzaram”.
O funeral de João Senos da Fonseca realiza-se na quinta-feira, pelas 11h30, na Casa Mortuária de Ílhavo, de onde segue para o cemitério local.