Estudo UA alerta para os efeitos de metais do grupo da platina em organismos marinhos.

Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) chama a atenção para os impactos ambientais dos metais do grupo da platina — platina (Pt), paládio (Pd) e ródio (Rh) — contaminantes emergentes cada vez mais presentes nos ecossistemas aquáticos. 

Estes metais são amplamente utilizados em catalisadores automóveis, processos industriais e aplicações médicas, sendo libertados de forma contínua para o ambiente.

Apesar da sua crescente presença, os efeitos biológicos destes metais, sobretudo quando ocorrem em mistura, permanecem pouco estudados. 

Para colmatar esta lacuna, investigadores dos Departamentos de Biologia e Química da UA, em colaboração com o CESAM e o LAQV-REQUIMTE, avaliaram os efeitos isolados e combinados de Pt, Pd e Rh no na espécie de mexilhão Mytilus galloprovincialis, uma espécie sentinela amplamente utilizada na monitorização ambiental.

Durante 28 dias, os mexilhões foram expostos a concentrações ambientalmente relevantes de cada metal individualmente, bem como a misturas binárias e ternárias. 

Foram analisados múltiplos biomarcadores associados ao metabolismo energético, às defesas antioxidantes, aos mecanismos de detoxificação e aos danos celulares, permitindo uma avaliação mecanística detalhada das respostas biológicas.

Os resultados do estudo assinado por Gabriela Praça, Marta Cunha, Mariana Rodrigues, Carla leite, Amadeu Soares, Eduarda Pereira e Rosa Freitas revelaram respostas distintas e dependentes do metal e da concentração.

A platina, sobretudo a baixas concentrações, estimulou o metabolismo energético e ativou mecanismos antioxidantes e de detoxificação. 

O paládio, em concentrações mais elevadas, comprometeu as reservas energéticas e a eficiência metabólica. Já o ródio destacou-se pela sua capacidade de induzir danos oxidativos significativos em lípidos e proteínas.

Quando os metais ocorreram em mistura, os efeitos tornaram-se mais complexos e não lineares. As combinações Pt+Pd e Pt+Rh foram dominadas por respostas sinérgicas, especialmente ao nível do metabolismo e da detoxificação celular. 

A mistura Pd+Rh apresentou maioritariamente efeitos aditivos. A exposição simultânea aos três metais (Pt+Pd+Rh) revelou um perfil distinto, com respostas maioritariamente aditivas e antagonismos específicos em biomarcadores antioxidantes e de oxidação proteica.

Este trabalho constitui uma das primeiras avaliações mecanísticas detalhadas dos efeitos combinados dos metais do grupo da platina em organismos marinhos. 

Os resultados reforçam a necessidade de considerar misturas de contaminantes e exposições crónicas de baixo nível na avaliação de riscos ambientais, sublinhando a crescente preocupação com o impacto ecológico destes metais nos ecossistemas costeiros.


Texto e foto: UA