Quando o problema Não é Não Ouvir, mas Não ser Ouvido - Jorge Almeida

A surdez é uma condição caracterizada pela perda parcial ou total da capacidade de ouvir, podendo variar desde dificuldades leves até à ausência completa de perceção sonora.

Mais do que uma limitação física, trata-se de uma realidade complexa que envolve dimensões sociais, culturais e linguísticas.

Apesar de não existirem dados que permitam afirmar com certeza quantas pessoas surdas existem, estima-se que em Portugal cerca de 10% da população tenha algum grau de perda auditiva, sendo que uma parte significativa (120 000) apresenta algum grau de surdez e cerca de 30 000 utilizam a Língua Gestual Portuguesa (LGP). 

A legislação portuguesa tem evoluído no sentido de garantir direitos e inclusão, destacando-se em 1997 o reconhecimento da Língua Gestual Portuguesa na Constituição da República e a criação de medidas educativas específicas para alunos surdos.

No campo da educação, as escolas de referência para a educação bilingue de alunos surdos desempenham um papel fundamental. 

Estas instituições promovem o ensino da Língua Gestual Portuguesa como primeira língua e do português escrito como segunda, permitindo um desenvolvimento mais equilibrado e inclusivo. 

Para além disso, contam com equipas técnicas especializadas — intérpretes, terapeutas da fala, psicólogos e professores com formação específica — que trabalham diariamente com alunos e famílias. 

Este trabalho não se limita à sala de aula: envolve acompanhamento emocional, orientação parental e estratégias de inclusão social.

As famílias também assumem um papel central neste percurso. Muitas enfrentam o impacto inicial do diagnóstico com muitas dúvidas, receios e até algum isolamento. 

No entanto, temos vindo a aprender que estas transformam-se em verdadeiros pilares de apoio, aprendendo Língua Gestual, adaptando rotinas e lutando por melhores condições de vida para os seus filhos. 

Entre desafios e conquistas, há histórias de superação que mereciam mais destaque do que muitas manchetes sensacionalistas.

E como responde a sociedade civil a esta realidade? 

Bem, com aquela mistura tão portuguesa de boa vontade e distração crónica em que até “dominamos o jogo, mas esquecemo-nos de marcar.” 

Por um lado, há um crescente reconhecimento da importância da inclusão, campanhas de sensibilização e eventos dedicados ao tema. 

Por outro, persistem barreiras comunicacionais, falta de acessibilidade em serviços públicos e uma certa tendência para “esquecer” que nem todos ouvem.

Afinal, ainda há quem ache que falar mais alto resolve tudo — como se o volume substituísse a compreensão.

No que toca aos decisores políticos, o cenário não é muito diferente. 

A preocupação com a comunidade surda parece, por vezes, seguir o calendário político: intensifica-se quando convém e esvanece-se logo depois. 

É quase como se a inclusão fosse um acessório — importante para a fotografia, mas dispensável no dia-a-dia.

Ainda assim, entendo que há progressos que importa assinalar, destacando o exemplo do município de ílhavo - resultado de uma aposta segura na educação, na qualidade das respostas educativas e apoio às famílias – assim como o trabalho realizado pelas associações e da persistência de quem vive esta realidade todos os dias. 

Precisamente para promover maior consciencialização e partilha de experiências, será realizado no próximo dia 15 de maio, e inserida nas comemorações do 25º aniversário de elevação da Gafanha da Nazaré a cidade, uma tertúlia informal sobre a educação bilingue e o trabalho desenvolvido no município de Ílhavo, com o apoio da CEBil-LGP e do Agrupamento de Escolas de Ílhavo. 

Será uma tertúlia realizada com pessoas que vivem esta realidade na primeira pessoa e que estão dispostas a criar melhores condições para a inclusão na comunidade escolar e sociedade. 

Naturalmente que estão todos convidados a participar. 

Porque compreender a surdez não é apenas ouvir menos — é, acima de tudo, aprender a escutar melhor. 

E são precisamente estes pequenos passos, muitas vezes discretos, que acabam por abrir caminho a grandes transformações.

 

Jorge Branco Almeida

Cebil-LGP

(Comissão pela Educação Bilingue com LGP)