LES A LES editam álbum de estreia homónimo que cruza eletrónica, experimentação e poesia.
O primeiro longa-duração do duo português já está disponível em formato digital e vinil, com o apoio fonográfico do 23 Milhas, projeto cultural do Município de Ílhavo.
Entre sintetizadores, guitarras, ritmos industriais e palavra, LES A LES exploram as possibilidades da língua portuguesa enquanto matéria musical.
Disponível em formato digital e vinil, com o apoio fonográfico do 23 Milhas, projeto cultural do Município de Ílhavo, o disco assinala um momento determinante no percurso do duo português, que encontra na interseção entre música eletrónica, experimentação sonora e poesia o ponto de partida para a construção de uma linguagem própria.
Criado em 2025 por Vítor Hugo e Charles Lazer, LES A LES resulta de uma relação musical com cerca de duas décadas, desenvolvida através de diferentes projetos e colaborações. Apesar de partirem de percursos e referências distintas, os dois músicos partilham uma vontade de explorar o som para além das estruturas convencionais da canção, colocando em diálogo a escrita, a composição, a produção eletrónica e a experimentação.
Em LES A LES, a palavra não surge apenas como veículo de uma mensagem.
É também ritmo, textura, percussão e matéria sonora.
A língua portuguesa ocupa um lugar central neste processo criativo, não como uma fronteira identitária, mas como um território de possibilidades: as suas expressões coloquiais, ambiguidades, sonoridades, jogos de palavras e diferentes formas de dizer tornam-se parte integrante da composição.
Uma frase pode contar uma história, sugerir uma imagem ou transmitir uma ideia, mas também ganhar novos sentidos quando repetida, fragmentada, processada ou colocada em confronto com uma determinada paisagem sonora.
É neste cruzamento que se desenvolve a identidade do duo.
A voz e a narrativa encontram-se com sintetizadores, beats, guitarras, teclados, percussão e texturas de natureza industrial, num processo em que os elementos eletrónicos não se limitam a acompanhar a palavra: interferem com ela, transformam-na e abrem novas possibilidades de interpretação.
O resultado é um disco que atravessa diferentes ambientes e abordagens, sem se prender a uma fórmula ou a fronteiras estilísticas predefinidas.
O álbum de estreia de LES A LES, homónimo, editado hoje, encontra-se disponível em formato digital e vinil, com o apoio fonográfico do 23 Milhas, projeto cultural do Município de Ílhavo, e estará disponível para escuta nas plataformas digitais Spotify e YouTube.
Dois percursos, uma linguagem em construção
A música de LES A LES nasce também do encontro entre as experiências individuais dos seus criadores.
Vítor Hugo, cantor, guitarrista e compositor, desenvolveu um percurso marcado sobretudo pela escrita de canções, explorada através de diferentes formatos.
Charles Lazer, multi-instrumentista, produtor, beatmaker e DJ, construiu o seu percurso entre a eletrónica, o rock, o hip-hop, o jazz e a produção musical, colaborando com diferentes artistas e projetos, em palco e em estúdio.
Deste encontro resulta uma tensão criativa que constitui uma das principais características do projeto.
A composição e a narrativa convivem com uma abordagem orientada para o ritmo, a produção e a exploração de texturas. Em vez de procurar uma síntese definitiva entre estes universos, LES A LES trabalham a partir das suas diferenças, permitindo que cada tema encontre a sua própria estrutura e evolução.
As canções desenvolvem-se frequentemente por camadas, alternando momentos em que a instrumentação se contém para dar espaço à palavra com outros em que o som ganha densidade e assume o primeiro plano.
As estruturas podem transformar-se, as narrativas podem nascer de uma história ou de uma única frase e os ritmos podem funcionar tanto como pulsação como elemento de rutura. A experimentação não é um desvio em relação à composição: é parte essencial do processo.
O álbum LES A LES afirma, assim, uma identidade artística em permanente movimento, onde a canção e a experiência sonora não são territórios opostos, mas possibilidades que se cruzam, se desafiam e se transformam mutuamente.
“PET”: a obsessão transformada em ritmo
Um dos temas que permite entrar neste universo é «PET», uma canção construída em torno de uma obsessão persistente, daquelas que acompanham uma pessoa ao longo do dia e pela noite dentro, resistindo a todas as tentativas de distração.
O pensamento regressa sempre ao mesmo lugar, como se tivesse encontrado uma presença permanente de que já não é possível escapar.
Essa ideia traduz-se numa composição marcada pela urgência e pela sensação de falta de ar.
Os sintetizadores ritmados acumulam-se camada após camada, enquanto a repetição da frase «Penso em ti» transforma a voz num mantra. O pensamento obsessivo atravessa diferentes cenários - o café, a estrada, o cabaret, o fado ou o divã -, numa sucessão de tentativas de evasão que acabam por revelar a impossibilidade de fugir àquilo que domina a mente.
A batida frenética e a eletricidade metálica das guitarras acentuam a tensão, conduzindo a música numa corrida contra o tempo que se concentra em apenas dois minutos e 51 segundos.
Antes do refrão final, uma marching band anuncia o desfecho da personagem, que acaba por sucumbir à própria obsessão. Depois de uma canção inteira dedicada à tentativa de escapar, a conclusão parece inevitável.
Em “PET”, a repetição não é apenas um recurso musical: reproduz o próprio mecanismo da obsessão, transformando o pensamento numa estrutura sonora que se intensifica até ao limite.
“Más Notícias Para Bons Rapazes”: dançar perante o desassossego
Se “PET” parte de uma obsessão individual, “Más Notícias Para Bons Rapazes” alarga o olhar a uma inquietação coletiva.
A canção aborda uma geração que parece dispor de cada vez mais distrações, mas encontrar cada vez menos razões para estar tranquila. Apesar das inovações tecnológicas que prometem simplificar o quotidiano, persiste uma sensação de ansiedade e mal-estar, como se algo estivesse prestes a acontecer - ou já tivesse acontecido.
A composição parte de uma espécie de balada folk, construída como uma narrativa contínua.
A frase que lhe dá título regressa ao longo da música como uma manchete, anunciando sucessivos capítulos de uma história povoada por personagens em movimento, mas incapazes de sair dos mesmos ciclos.
Arquitetos de destinos, filhos de mil vielas e mestres no suicídio adiado cruzam-se numa sucessão de imagens que percorrem a procura de amores perfeitos, o tédio e a dificuldade de encontrar uma saída para a repetição quotidiana.
Musicalmente, o tema desenvolve-se por blocos.
O instrumental abre espaço à palavra quando a narrativa precisa de respirar e cresce nos momentos em que a voz recua.
Elementos eletrónicos, vozes processadas, teclados aveludados e guitarras fuzz tornam a atmosfera progressivamente mais densa, até que a canção abandona a narrativa inicial e se transforma numa espécie de vertigem dançável.
É nesta contradição que reside uma das ideias centrais do tema: falar de excesso, solidão, tédio e futuros incertos através de uma música que convida ao movimento. Perante as más notícias, resta aumentar o volume.
O desconforto não desaparece, mas encontra outra forma de expressão e talvez outra forma de ser vivido.
Uma viagem de lés a lés pelo som e pela linguagem
O nome LES A LES traduz a vontade de atravessar o espectro sonoro de uma ponta à outra, sem estabelecer antecipadamente os limites dessa viagem.
Não se trata de procurar abranger todos os estilos, mas de manter o processo criativo aberto ao inesperado, recusando uma definição rígida do que uma canção deve ser ou de como a palavra deve funcionar dentro dela.
Entre a ironia, o humor, o absurdo e a poesia experimental, o projeto explora diferentes formas de construir significado.
A língua portuguesa surge como matéria viva, sujeita a deslocamentos e transformações, enquanto a eletrónica tanto pode criar ambientes como interromper narrativas, acentuar tensões ou abrir espaço para novas leituras.
Com o lançamento do álbum de estreia LES A LES, o duo reúne e aprofunda esta abordagem artística, afirmando um projeto onde a experimentação, a textura e a narrativa coexistem sem hierarquias fixas.
Um disco que procura o lugar instável onde palavra e som deixam de funcionar como elementos separados e passam a construir, em conjunto, uma outra forma de linguagem.