Um consórcio de quatro entidades portuguesas arrancou com o projeto ASTRAL, com o objetivo de criar um material que atualmente existe maioritariamente nos Estados Unidos e cujas fórmulas são mantidas sob segredo industrial.
O projeto é liderado pela Controlar e pela Graphenest, única produtora de grafeno em Portugal, e conta com a participação do PIEP (Pólo de Inovação em Engenharia de Polímeros) e da Universidade de Aveiro.
Com um investimento de 1,86 milhões de euros financiado pelo Portugal 2030, o ASTRAL decorre entre junho de 2026 e maio de 2029 e está alinhado com a Estratégia Europeia para a Autonomia Tecnológica, num momento em que a Europa procura reduzir a dependência de fornecedores externos em setores críticos como a defesa, a mobilidade autónoma e as telecomunicações.
O objetivo do ASTRAL é desenvolver um material multicamada ultrafino e flexível, baseado em grafeno e em partículas magnéticas, capaz de absorver radiação eletromagnética em toda a gama de frequências usada pela indústria moderna, desde os radares automóveis até à comunicação 5G e aos sistemas militares.
Na prática, visa substituir as espumas piramidais volumosas que revestem as câmaras anecóicas por uma solução em filme flexível de menor espessura, adaptável a qualquer superfície, com absorção em banda larga entre os 2 e os 110 GHz, sendo esta uma solução que não existe na Europa neste formato.
O mercado global destes materiais foi avaliado em 828 milhões de dólares em 2025, com crescimento previsto para 1,1 mil milhões em 2034.
O mercado de câmaras anecóicas deve passar dos atuais 1,6 para 2,3 mil milhões de dólares até 2030.
O impacto do material desenvolvido no âmbito deste projeto estende-se por três setores estratégicos:
Na indústria automóvel, responde à crescente necessidade de testar e calibrar radares ADAS (os sistemas de condução autónoma que operam a 77 GHz) que equipam milhões de veículos fabricados por clientes diretos do consórcio, como a Bosch, Visteon, Continental, Aptiv ou Borgwarner.
Nas telecomunicações, oferece uma solução de blindagem eletromagnética leve e adaptável, essencial para o desenvolvimento de infraestruturas 5G e dispositivos de nova geração.
Na indústria de aeroespaço e defesa, o impacto é particularmente relevante uma vez que esta tecnologia tem a capacidade de tornar drones e aeronaves menos detetáveis por radar, sendo esta capacidade um dos ativos estratégicos mais valiosos em contexto militar.
Ao contrário dos revestimentos furtivos tradicionais, pesados e rígidos, este material terá a capacidade de se adaptar a qualquer geometria de aeronave sem comprometer o seu peso ou desempenho.
Neste sentido, a Força Aérea Portuguesa pretende participar nos ensaios finais do projeto, com foco na aplicação em veículos aéreos não tripulados de perfil furtivo.
A Controlar, promotora líder do projeto, é uma empresa sediada em Alfena (Porto) com mais de 30 anos de experiência no desenvolvimento de sistemas de teste eletrónico, robótica e automação. A Controlar tem presença em diversas indústrias, com um foco nas indústrias automóvel e aeroespaço e defesa, com presença internacional em dez países e tendo como clientes os grandes fabricantes de eletrónica automóvel.
A Graphenest, que também lidera o projeto, é a única empresa portuguesa com capacidade industrial inicial de produção de grafeno.
Fundada em 2015 e com patentes concedidas nos Estados Unidos e Canadá, desenvolve soluções avançadas de blindagem eletromagnética para os setores de mobilidade elétrica, eletrónica e defesa, com parcerias com empresas como a Mitsubishi e a Valeo.
Bruno Figueiredo, Co-CEO da Graphenest, afirma que "o ASTRAL representa um passo decisivo para a Europa na conquista de autonomia tecnológica numa área até agora dominada pelos Estados Unidos. Portugal tem atualmente as competências e os parceiros certos para desenvolver esta tecnologia de raiz, e a Graphenest, com a sua capacidade industrial de produção de grafeno, está em posição única para tornar este material uma realidade industrial com impacto global”.
Já João Queirós, Chief R&D Officer da Controlar, acrescenta que "é uma honra liderar um projeto desta dimensão estratégica. A Controlar traz para o ASTRAL três décadas de experiência em sistemas de teste eletrónico e um conhecimento profundo das exigências da indústria automóvel e de defesa. O nosso objetivo é colocar essa experiência ao serviço do desenvolvimento de uma solução verdadeiramente inovadora, que reforce a soberania tecnológica europeia e abra novos mercados para as empresas portuguesas".
O consórcio conta ainda com dois parceiros do sistema científico nacional.
O PIEP traz a experiência industrial no desenvolvimento e produção das folhas, enquanto a Universidade de Aveiro contribui com investigação avançada em materiais magnéticos, através de três laboratórios de excelência reconhecidos internacionalmente.
Em termos de proteção dos resultados, o projeto prevê registar pelo menos uma patente internacional.
O consórcio está ainda alinhado com as prioridades europeias de investimento em materiais avançados para segurança e defesa, abrindo caminho a futuras parcerias estratégicas a nível europeu.
Fundada em 2015 e sediada em Sever do Vouga, Aveiro, a Graphenest é a única empresa portuguesa com capacidade de produção industrial inicial de grafeno, para o desenvolvimento de soluções de blindagem eletromagnética em setores como defesa, mobilidade, saúde e eletrónica.
Com tecnologia própria protegida por patentes concedidas nos Estados Unidos e Canadá, a empresa já captou mais de 3 milhões de euros de investimento e encontra-se a preparar uma nova fase de crescimento industrial.
O plano de scale-up prevê aumentar a capacidade produtiva de grafeno, reforçando a sua capacidade de resposta à procura internacional e consolidando a sua posição como um dos principais players europeus na área dos materiais avançados.
Fundada em 1995 e sediada em Alfena (Porto), a Controlar é uma empresa de engenharia especializada no desenvolvimento de sistemas de teste e automação para a produção avançada de eletrónica.
Com capital inteiramente português e presença em dez países distribuídos pela Europa, América do Norte, Ásia e África, a empresa apoia fabricantes internacionais na validação, industrialização e controlo de qualidade de produtos eletrónicos.
A Controlar desenvolve soluções específicas em todas as fases da produção, desde teste e programação automáticos de PCB até à verificação end-of-line, automação robótica, sistemas de visão, rastreabilidade e integração completas da linha de produção.
Cada sistema é desenvolvido de acordo com as necessidades e objetivos do cliente, seja em projetos de baixo volume ou em ambientes industriais complexos de elevada produção. Com experiência multidisciplinar e parcerias com fornecedores de tecnologia de referência, a Controlar apoia setores como o automóvel, o aeroespacial e defesa, a eletrónica industrial e de consumo, o farmacêutico e a energia.