A Universidade de Aveiro (UA) concluiu a sua participação na Agenda Microeletrónica em dezembro de 2025, deixando resultados que vão do desenvolvimento de um sistema de rádio totalmente digital para redes 5G+/6G à validação de processos para tratamento de efluentes e à sistematização de boas práticas para a reciclagem de equipamentos eletrónicos.
A participação da UA representou um investimento elegível de 1,6 milhões de euros.
A Agenda Microeletrónica reuniu 17 parceiros e mobilizou um investimento elegível de 67,5 milhões de euros, tendo como líder a AMKOR Technology Portugal (ATEP). Alinhada com as iniciativas europeias para o setor dos semicondutores, a Agenda procurou reforçar a capacidade de inovação e produção nacional numa área considerada estratégica para a transição digital.
Na UA, o trabalho desenvolveu-se em três áreas de investigação: comunicação e redes móveis, tratamento de efluentes e solventes, e reciclagem de resíduos de equipamentos elétricos e eletrónicos.
Os três projetos deixam diferentes tipos de conhecimento e capacidade na Universidade, desde um demonstrador tecnológico a processos validados e ferramentas para apoiar as empresas.
A UA e o Instituto de Telecomunicações (IT) desenvolveram, no âmbito do WP13, um sistema de rádio 5G+/6G num chip reprogramável completamente digital.
O principal resultado é um sistema Radio-over-Fiber, projetado e testado nos laboratórios das duas instituições, que utiliza uma FPGA, um chip reprogramável, para gerar diretamente o sinal de rádio.
A solução dispensa componentes analógicos habitualmente utilizados neste tipo de sistemas, como conversores, misturadores e osciladores. O sinal é gerado diretamente no chip como um fluxo de bits, viaja numa fibra ótica e chega à antena praticamente intacto.
O mesmo transmissor pode funcionar em qualquer frequência de portadora entre 100 MHz e 12,5 GHz e com sinais de até 1 GHz de largura de banda, apenas alterando a programação do chip.
O projeto incluiu ainda contributos relativos a algoritmos de inteligência artificial acelerados em FPGA para reconhecer sinais e estimar as condições do canal de rádio em tempo real.
As soluções desenvolvidas respondem à necessidade de sistemas de rádio mais flexíveis e fáceis de atualizar, simplificando a unidade junto à antena e transferindo a flexibilidade para o software.
O trabalho, coordenado por Arnaldo Oliveira, Professor do Departamento de Electrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) e investigador do IT, envolveu uma equipa de 33 pessoas: sete docentes, três investigadores e técnicos e 23 bolseiros.
“O projeto deixa na UA a demonstração de que toda a cadeia de rádio 5G+/6G, do bit às ondas de rádio, pode ser digital e transportada por fibra”, afirma Arnaldo Oliveira. Segundo o investigador, deixa também “uma nova geração de engenheiros formados em microeletrónica, com capacidade para transformar conceitos em hardware baseado FPGAs e chips dedicados”.
No WP14, o desafio foi desenvolver e testar processos capazes de melhorar o tratamento dos efluentes e solventes da indústria de microeletrónica.
A equipa estudou e validou três famílias de processos — tratamento eletroquímico, adsorção e digestão anaeróbia — aplicados a efluentes e solventes reais da indústria de microeletrónica.
Os testes confirmaram ganhos de eficiência relevantes em cada rota: o tratamento por eletrocoagulação permitiu, por exemplo, reduzir em cerca de 86% a carga poluente do efluente tratado, com resultados igualmente positivos obtidos, de forma independente, nos processos de adsorção e de digestão anaeróbia estudados.
O objetivo foi criar alternativas mais eficientes e económicas para tratar e valorizar estas correntes residuais, tornando o processo industrial mais limpo e sustentável.
O trabalho foi desenvolvido em colaboração direta com a ATEP e contou também com a ligação a outras universidades, não tendo havido outras parcerias diretas com a indústria. Deu ainda origem a várias dissertações de mestrado e a um doutoramento atualmente em fase de escrita.
Para a coordenadora deste projeto na UA, Helena Nadais, Professora do Departamento de Ambiente e Ordenamento (DAO), este projeto deixa como legado para indústria “uma sequência de tratamento de efluentes líquidos recomendada, validada ao longo do projeto, bem como diferentes opções de valorização para os solventes usados no fabrico de componentes eletrónicos”. Para além disso, sublinha ainda o “forte investimento na formação de novos investigadores na área”.
No WP15, a atenção voltou-se para o final do ciclo de vida dos equipamentos elétricos e eletrónicos.
O projeto, coordenado pelos Professores Pedro Fonseca (DETI) e Ana Paula Gomes (DAO), procurou reunir boas práticas para a gestão destes resíduos, tendo em conta os princípios de sustentabilidade ambiental e legislação aplicável.
Neste projeto, a equipa colaborou diretamente com o Parque de Ciência e Inovação (PCI), a HFA, a AMKOR e a EXATRONIC. Com esta última, foi perspetivada a Declaração Ambiental do Produto, para um dos recentes produtos da sua linha de produção, através do programa internacional PEP-Ecopassport. O processo assenta numa Avaliação do Ciclo de Vida (LCA) multicritério e constitui uma ferramenta para comparar dados, apoiar iniciativas de ecodesign e responder aos requisitos de reporte dos mercados internacionais no setor da microeletrónica.
O principal legado identificado pela equipa é o Manual de Boas Práticas para a Produção e Reciclagem de Resíduos de Equipamentos Elétricos e Eletrónicos, enquanto “contributo para apoiar as empresas do setor nacional da Eletrónica e Microeletrónica, nos seus esforços para mitigar os impactes negativos decorrentes da sua atividade”, refere Ana Paula Gomes.
No conjunto, os três projetos deixam na UA resultados em diferentes áreas da cadeia de valor da microeletrónica: das comunicações 5G+/6G ao tratamento de efluentes e solventes e à gestão dos resíduos eletrónicos.
Ficam também conhecimento especializado e capacidade de investigação e formação, com várias equipas envolvidas no desenvolvimento destas áreas.
A Agenda Microeletrónica é uma das 21 Agendas Mobilizadoras/Verdes para a Inovação Empresarial do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR) em que a UA participa.
Texto e foto: UA