Onde está a sua Saudade?
Dalila Maganinho cresceu na Costa Nova até aos oito anos, quando emigrou com os pais para a Alemanha.
Anos mais tarde, transformou uma experiência marcada pela distância, pelo regresso e pela Saudade numa investigação que procura compreender, através do design, as diferentes relações que formam este sentimento.
Durante anos, voltar a Portugal significava para Dalila voltar aos lugares e às pessoas que tinha deixado.
As férias eram esperadas durante meses e, quando finalmente chegavam, traziam consigo uma contradição: a Saudade não desaparecia necessariamente com o regresso. «Na Alemanha, vivia sempre com a ideia de voltar a Portugal. E, quando estava cá, já sentia Saudade daquele momento, porque sabia que ia acabar num fechar de olhos. Ainda hoje sinto muitas vezes que estou uns passos à frente, a pensar naquilo que ainda quero viver e de que um dia vou sentir Saudade.»
Foi desta relação pouco linear com o tempo que nasceu, anos mais tarde, uma questão de investigação.
Dalila voltou à região para realizar o mestrado em Design na Universidade de Aveiro e começou a perguntar-se se seria possível usar o design para compreender melhor a complexidade da Saudade.
Dessa investigação nasceu Anatomia da Saudade, projeto que continua hoje a desenvolver de forma independente e que, ao longo dos anos, tem assumido diferentes formas. «Interessa-me o design pela sua capacidade de lidar com a complexidade: organizar, traduzir e tornar visível aquilo que é difícil de compreender ou explicar.»
Uma dessas formas chegou agora ao espaço público de Aveiro.
No dia 12 de setembro, “A Saudade que Fita” foi apresentada junto ao Mercado Manuel Firmino no âmbito da RIA 2026, Ruas de Intervenção Artística, da Agora Aveiro.
A intervenção participativa partiu das fitas que fazem parte da paisagem das pontes da cidade e deu-lhes uma nova função.
Cada participante pensava em algo ou alguém de que sentia Saudade, escrevia-o numa fita e procurava encontrar-lhe um lugar numa estrutura concebida como um mapa. Vermelha, se ainda fosse possível “matar” essa Saudade; branca, se já não fosse.
Depois, era preciso situá-la no tempo, no espaço e na distância.
Uma ação aparentemente simples acabou por exigir alguma reflexão.
Segundo a equipa que acompanhou a intervenção, os participantes demoraram antes de fazer as suas escolhas.
Pelo meio, surgiram conversas, abraços e algumas lágrimas.
«Gostei de saber que havia essa pausa. Não queria dizer às pessoas o que é a Saudade. Queria que parassem e pensassem onde estava a sua.» Várias das fitas colocadas foram vermelhas, mas Dalila prefere não transformar essa observação numa conclusão.
Interessa-lhe perceber o que acontece quando as perguntas da investigação deixam de ser apenas suas e passam para outras pessoas.
Fazer uma anatomia da Saudade significa, para Dalila, tentar perceber tudo aquilo a que este sentimento está ligado.
O tempo, o espaço, a distância ou o desejo fazem parte dessa procura, mas a questão vai mais longe.
O que pode a Saudade dizer sobre nós, sobre a forma como vivemos e nos relacionamos com a vida?
O design ajuda a explorar estas perguntas e a dar-lhes forma.
As fitas são apenas uma dessas formas.
«Se levasse estas perguntas para outro lugar, não sei se levaria as fitas comigo. Há muitos gestos, objetos e tradições em Portugal que fazem parte do nosso quotidiano e para os quais quase já não olhamos. Gostava de perceber melhor o que carregam e que relações podem estabelecer com a Saudade.»
Em Aveiro, estas perguntas encontraram forma nas fitas.
Noutros lugares, poderão encontrar outras formas, a partir dos gestos, objetos e tradições de cada contexto. E em Ílhavo, que forma poderia ter a Saudade?
Dalila Maganinho é designer e investigadora, natural de Aveiro, e cresceu na Alemanha.
Estudou Design na Hochschule für Künste Bremen e realizou o mestrado em Design na Universidade de Aveiro.
O seu trabalho cruza design e investigação, com especial interesse pela cultura, identidade e experiência humana.
Interessa-lhe explorar questões complexas através do design e encontrar formas de as tornar mais visíveis e acessíveis.
É autora de Anatomia da Saudade, projeto iniciado durante o mestrado e que continua a desenvolver de forma independente entre Portugal e a Alemanha.
Atualmente, prepara também uma publicação a partir desta investigação.