O Dia Nacional do Dador de Sangue que é hoje celebrado (a 27 de Março) foi instituído oficialmente através da Resolução do Conselho Ministros n.º 40/86, tinha por objectivo reconhecer a importância da contribuição desinteressada dos Dadores de Sangue para o tratamento de doentes.
A institucionalização do Dia Nacional do Dador de Sangue deve constituir, a expressão oficial desse reconhecimento e servir para evidenciar, junto da população em geral, o valor social e humano da dádiva de sangue, estimulando a sua prática como imprescindível.
Contudo, a realidade que hoje vivenciamos é bem diferente, na medida em que não existem incentivos à dádiva, os que existem nem sempre funcionam, são letra morta.
Este dia é comemorado num ambiente de total desunião, de desconforto entre associações de dadores.
O sangue é sempre para o mesmo (doente que dele necessita) mas, não é tudo o mesmo.
Tenho afirmado ao longo destes anos, que os dadores não são respeitados no Serviço Nacional de Saúde, somos tratados como dispensáveis.
Vive-se esse sentimento. Não pode, nem deve continuar a ser assim, tendo em conta que os dadores não dão prejuízo ao ministério da saúde, bem pelo contrário.
A prova disso é que as nossas declarações ainda não foram desmentidas.
A quebra substancial de dádivas no Posto Fixo da ADASCA desde Janeiro, deve-se a diversos factores, sendo um deles as dificuldades de estacionamento das viaturas, como ainda às multas.
Alguém está determinado em destruir o nosso trabalho, ou, sacudir as responsabilidades que devia assumir, pela falta de cooperação. Somos ou não necessários?
“O sangue é um bem imprescindível e insubstituível, cuja obtenção depende exclusivamente da dádiva voluntária e benévola”. Se é tão imprescindível porque os dadores continuam a ser marginalizados? Porque devem pagar para ser solidários? O desconto no ordenado no final de cada mês é a prova evidente.
Mais: “O valor que esta dádiva representa para a comunidade e o mérito dos dadores, que dedicada e persistentemente ao longo de toda a uma vida contribuem de forma desinteressada e altruísta com um bem indispensável à vida daqueles que dele carecem, devem ser mais fortemente sublinhados”.
De boas intenções e discursos de circunstância estamos nós saturados.
“Justifica-se, pois, que estes actos de inequívoco relevo e solidariedade social sejam reconhecidos ao mais alto nível da hierarquia do Ministério da Saúde”.
Nada disto corresponde à prática diária.
"Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz" é um ditado popular português que satiriza a hipocrisia de quem aconselha virtudes que não pratica.
A ausência dos dadores no Posto Fixo da ADASCA traduziu-se numa redução brutal e preocupante, tanto que os apelos à dádiva de sangue são uma constante.
Somos nós os culpados? Desde 2014 que chamamos a atenção.
No que diz respeito aos critérios para atribuição de isenção aos Dadores de Sangue, as Circulares Normativas da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS), com os N.ºs 36 e 8, de 28 de Dezembro de 2011 e 19 Janeiro de 2012, explicitam que os Dadores de Sangue podem apenas (!) beneficiar da isenção do pagamento dos valores das taxas moderadoras nas seguintes condições: se tiverem efectuado mais de 30 dádivas na vida (designado por dador benemérito) ou se tiverem duas dádivas nos últimos 12 meses, incluindo os candidatos à dádiva impedidos temporária ou definitivamente de dar sangue desde que tenham efectuado 10 ou mais dádivas válidas (*).
As declarações comprovativas das condições anteriormente referidas são emitidas pelos Serviços de Sangue ou pelo IPSangue,IP. *
Isto revela uma falta de sensibilidade social pela causa da dádiva de sangue, que além surrealista, é injusta.
Os dadores são soberanos, respondem com a sua ausência.
O descontentamento e número de queixas que nos são transmitidas pelos dadores associados da ADASCA é preocupante, muitos declaram mesmo que não doam mais sangue, porque se sentem enganados, aliás, deixaram de comparecer.
O ministério da saúde, esqueceu-se da parte mais importante: as motivações humanas, que levam as pessoas a doar sangue, a sua mais-valia social, pensou (pensa) unicamente no custo-beneficio.
Se os discursos proferidos no Dia Nacional do Dador de Sangue se transformassem em mais um imposto, os responsáveis pela tutela, entre outros, seriam mais prudentes nas afirmações.
A escassez de sangue não deve ser imputada aos dadores ou às associações, deve sim ser atribuída a quem destruiu todo um trabalho que demorou anos a erguer.
Mais há para dizer, melhor é ficarmos por aqui, porque nós é que somos os maus da fita, os malandros, os indiferentes, assim nos acusam às famílias dos doentes.
Os familiares do doentes são ou não dadores? Fica a pergunta. Antes dar do que receber.
Joaquim Carlos
Fundador/Presidente da Direcção da ADASCA
Aveiro, 27 de Março de 2026
*Citação: Circular Normativa Nº 8/2012, de 19 Janeiro da Administração Central dos Sistema de Saúde (ACSS).