"ANGES não aceitará passivamente o desaparecimento da Gerontologia" - Ricardo Pocinho.

A ANGES — Associação Nacional de Gerontologia Social manifesta a sua profunda preocupação perante os dados relativos ao acesso ao ensino superior na área da Gerontologia e da Educação Social Gerontológica.

Os resultados da 1.ª fase do Concurso Nacional de Acesso ao Ensino Superior de 2026 tornam esta preocupação impossível de ignorar.

Nas três licenciaturas públicas especificamente designadas Gerontologia, foram abertas 90 vagas: 20 no Instituto Politécnico de Bragança, 40 no Instituto Politécnico de Coimbra e 30 no Instituto Politécnico de Viana do Castelo.

Após a 1.ª fase, ficaram 55 vagas por preencher: 20 em Bragança, 25 em Coimbra e 10 em Viana do Castelo.

Isto significa que 61,1% das vagas disponíveis em Gerontologia ficaram por ocupar e apenas 38,9% foram preenchidas.

Se acrescentarmos a licenciatura em Educação Social Gerontológica, do Instituto Politécnico da Guarda, com 15 vagas iniciais e 12 vagas sobrantes, o retrato é ainda mais expressivo: num total de 105 vagas nestas formações diretamente ligadas à Gerontologia, 67 ficaram por preencher, correspondendo a 63,8% da oferta inicial.

O caso de Bragança deve fazer soar todos os alarmes. A licenciatura em Gerontologia da Escola Superior de Saúde disponibilizou 20 vagas para 2026/2027 e as 20 transitaram como vagas sobrantes da 1.ª fase, o que significa que não houve qualquer colocado e a taxa de ocupação foi de 0%.

Importa ser rigoroso: os dados oficiais consultados permitem afirmar que houve zero colocados, não que tenham existido zero candidatos.

Aliás, o histórico da DGES mostra a dimensão do problema: em 2025, Bragança teve apenas cinco candidatos na 1.ª fase e nenhum colocado; em 2024, seis candidatos e apenas um colocado.

É no distrito de Bragança, que se localiza Vinhais, é o município mais envelhecido do país: 46,3% da população tem 65 ou mais anos.

Os números devem obrigar-nos a parar e a perguntar, coletivamente, para onde estamos a caminhar.

Portugal é um dos países mais envelhecidos da Europa. As cidades envelhecem. Os territórios do interior envelhecem.

As organizações sociais enfrentam diariamente desafios cada vez mais complexos. As famílias precisam de respostas.

As autarquias procuram soluções para populações progressivamente mais envelhecidas. Fala-se de envelhecimento ativo, saudável, digno e participado. Fala-se de longevidade, de cuidados integrados, de prevenção, de autonomia e de combate ao isolamento.

Mas, perante tudo isto, quem está verdadeiramente a preparar o país para envelhecer?

E, sobretudo, como se explica que jovens altamente qualificados em Gerontologia continuem a encontrar enormes dificuldades de empregabilidade e de reconhecimento profissional num país que nunca precisou tanto deles?

A culpa não pode morrer solteira.

O que fazem as instituições de ensino superior que conferem estes graus académicos para assegurar que os seus diplomados encontram o lugar profissional que a sociedade necessita que ocupem?

O que fazem as associações que representam estes profissionais?

O que fazem as uniões, federações e confederações que representam as instituições sociais que poderiam e deveriam integrar estes profissionais nas suas equipas?

O que fazem as entidades responsáveis pela avaliação e acreditação dos cursos?

O que fazem as entidades públicas que financiam a formação superior e, simultaneamente, financiam políticas, programas e respostas dirigidas às pessoas mais velhas?

E o que fazem os municípios, as comunidades intermunicipais e os territórios que todos os dias reconhecem o envelhecimento demográfico como um dos seus maiores desafios?

Não podemos continuar a formar profissionais altamente especializados para o envelhecimento e, depois, construir respostas sociais, municipais e territoriais onde essa especialização não é reconhecida.

Não podemos defender a multidisciplinaridade apenas nos discursos e esquecer o gerontólogo quando constituímos as equipas.

Não podemos financiar licenciaturas, acreditar cursos, formar profissionais e, no final do percurso, deixar esses jovens sem espaço profissional claramente reconhecido.

E não podemos estranhar que os jovens deixem de escolher Gerontologia quando aqueles que concluíram a sua formação continuam a lutar pelo reconhecimento da profissão para a qual estudaram.

Esta discussão também não pertence apenas aos gerontólogos.

Pertence a quem hoje é velho. Pertence a quem amanhã será velho. Ou seja, pertence a todos nós.

A ANGES considera que chegou o momento de cada entidade assumir a sua responsabilidade.

As instituições de ensino superior, as associações profissionais, as organizações sociais, as estruturas representativas do setor social, as autarquias, o Governo, as entidades financiadoras e de acreditação e todos aqueles que intervêm nas políticas de envelhecimento têm de responder a uma pergunta muito simples:

Se Portugal nunca teve tantas pessoas idosas e nunca precisou tanto de respostas especializadas para o envelhecimento, como podemos aceitar que a Gerontologia esteja a perder estudantes, profissionais e espaço de intervenção?

Há uma contradição que o país não pode continuar a ignorar.

A ANGES não aceitará passivamente o desaparecimento da Gerontologia enquanto área científica, académica e profissional.

Desde 2012, temos defendido a valorização da Gerontologia, o reconhecimento dos seus profissionais e a necessidade de Portugal construir respostas para o envelhecimento sustentadas em conhecimento científico e em profissionais devidamente qualificados.

Muitas vezes fizemo-lo acompanhados.

Outras vezes, demasiadas vezes, fizemo-lo praticamente sozinhos.

Se tivermos de continuar sozinhos, continuaremos.

Mas seria incompreensível que, perante o desafio demográfico que Portugal enfrenta, continuássemos a desperdiçar uma geração de profissionais altamente preparados para trabalhar precisamente numa das áreas em que o país mais necessita de conhecimento, planeamento e intervenção.

Por isso, a ANGES desafia publicamente todas as entidades com responsabilidades nesta matéria a sentarem-se à mesma mesa.

Não procuramos culpados. Procuramos responsabilidades, compromissos e soluções.

É necessário discutir empregabilidade, reconhecimento profissional, integração dos gerontólogos nas respostas sociais e de saúde, carreiras, perfis profissionais, contratação pelas autarquias, participação nas políticas locais de envelhecimento e o próprio futuro da formação superior em Gerontologia.

A questão deixou de ser saber se Portugal vai envelhecer.

Portugal já envelheceu.

A questão agora é saber se teremos a inteligência coletiva para reconhecer e aproveitar os profissionais que preparámos precisamente para responder a essa realidade.

A ANGES estará onde sempre esteve: ao lado da Gerontologia, dos gerontólogos e das pessoas mais velhas.

E não desistiremos.

Mesmo que tenhamos de continuar a lutar sozinhos.

Ricardo Pocinho


Presidente da ANGES — Associação Nacional de Gerontologia Social

Autor do livro - O estrondo Silencioso - Portugal e a anestesia moral perante e velhice