Investigação da UA aponta soluções para empresas "mais humanas".

Um estudo da Universidade de Aveiro (UA) dedicado ao futuro das organizações propõe uma resposta sobre o uso da tecnologia para libertar os trabalhadores de tarefas repetitivas, desenvolver novas competências e criar ambientes de trabalho mais humanos, sustentáveis e preparados para a mudança.

A investigação analisou estudos científicos sobre três áreas que têm sido habitualmente estudadas em separado: a gestão dos processos de trabalho, a gestão das pessoas e a chamada Indústria 5.0.

A partir desta análise, os investigadores desenvolveram um novo modelo, designado Unified Talent Management Process Framework 5.0, que procura juntar estas três dimensões.

A ideia central define a tecnologia como elemento de apoio ao trabalho das pessoas, e não como substituto.

A inteligência artificial e a automação podem assumir tarefas rotineiras e repetitivas, permitindo que os trabalhadores dediquem mais tempo a atividades que exigem criatividade, conhecimento, capacidade de decisão e interação humana.

Mas esta transformação implica também preparar as pessoas para novas formas de trabalhar.

O estudo, da autoria de Ana Ferreira, Teresa Silva, Henrique Fernandes, Juliana Salvadorinho e Leonor Teixeira, desenvolvido no âmbito do Mestrado em Engenharia e Gestão Industrial (MEGI) no Departamento de Economia, Gestão, Engenharia Industrial e Turismo (DEGEIT) e no Instituto de Engenharia Eletrónica e Informática de Aveiro da UA, destaca, por isso, a importância da formação ao longo da vida, através de ferramentas digitais que permitam aos trabalhadores adquirir novas competências ou atualizar as que já possuem.

Esta aposta pode ajudar as organizações a responder mais rapidamente às mudanças tecnológicas e às novas exigências do mercado de trabalho.

O modelo proposto defende ainda que as empresas devem procurar colocar a pessoa certa na função certa, tendo em conta não apenas as suas competências, mas também as suas motivações.

Um melhor ajustamento entre trabalhadores e funções pode contribuir para aumentar o envolvimento, a satisfação e a motivação profissional.

A tecnologia pode também ajudar os responsáveis das organizações a tomar decisões mais informadas.

A análise de dados sobre equipas de trabalho e o seu desempenho pode fornecer informação em tempo real, permitindo identificar problemas, antecipar necessidades e perceber onde é necessário intervir.

A sustentabilidade é outra das dimensões fundamentais. Para os investigadores, uma empresa preparada para o futuro não deve procurar apenas aumentar os lucros: deve também reduzir desperdícios, utilizar melhor os recursos e cuidar das pessoas. A melhoria dos processos de trabalho pode contribuir simultaneamente para ganhos económicos e para uma utilização mais eficiente dos recursos naturais.

O estudo chama ainda a atenção para a necessidade de uma utilização responsável da inteligência artificial. Automatizar tarefas deve servir para melhorar as capacidades dos trabalhadores e o seu bem-estar, e não apenas para reduzir custos ou substituir trabalho humano.

Entre as propostas apresentadas estão também sistemas de recompensa e ferramentas inspiradas na gamificação, ajudando a aumentar a motivação e incentivar a melhoria contínua.

Apesar das propostas, os investigadores sublinham que o modelo desenvolvido ainda carece de validação em contexto real, ou seja, nas organizações.

Estudos futuros deverão avaliar, entre outros aspetos, o impacto destas ferramentas na motivação dos trabalhadores, a forma como a aprendizagem digital pode aproximar diferentes gerações e os desafios éticos associados à utilização da inteligência artificial na gestão de pessoas.