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Educação à Escuta

Um programa da responsabilidade do CIDTFF da Universidade de Aveiro. Porque a diferença está na Educação e a Educação faz toda a diferença

Contaminações e Tecnologias: “prisioneiros livres” no recolhimento de “livres sitiados”

11, Maio 2020

Sou António Moreira, membro do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores e Diretor do Programa Doutoral em Multimédia em Educação, do Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro.

É exatamente neste âmbito, o da Multimédia em Educação, que considero pertinente refletir sobre o papel desta associação de conceitos (educação e multimédia), nomeadamente à luz da educação a distância.

Com efeito, num momento de isolamento profilático, em que os órgão de decisão política, a vários níveis, os professores, pais e encarregados de educação, se mobilizaram para que os alunos dessem continuidade às suas atividades educativas em situação de afastamento físico e de impedimento de deslocação às instituições de ensino, a Educação a Distância apareceu como fórmula incontornável para estabelecer pontes e pontos de contacto entre os vários atores envolvidos, num terreno agora não delimitado geográfica ou espacialmente, e num tempo cronológico mais flexível e desespartilhado da rotina do horário escolar.

O primeiro impacto, acolhido com naturalidade por uns, com desconfiança, receio, e até preocupação por outros, foi, todavia, consolidando a sua presença, modificando hábitos, e permitindo que o isolamento fosse minimizado, criando novos laços, novas compreensões e modos de estruturar as ofertas formativas, ensinar, estudar, aprender, construir conhecimento, promover relações família-escola, e até avaliar. É sobre este universo que me proponho contribuir para a Educação à Escuta.

Os estabelecimentos de ensino de todos os níveis e setores procuraram encontrar os mecanismos possíveis para mitigar o impacto do confinamento imposto pela pandemia, numa esforço partilhado, tantas vezes com recurso a grupos espontâneos que se foram formando em diversas plataformas e redes sociais, de um modo bem mais pervasivo do que o próprio COVID-19. Seria bem mais interessante que às estatísticas preocupantes, e muitas vezes infelizmente mórbidas, associadas a este contexto viral, se contrapusessem novas estatísticas, bem mais positivas, da capacidade humana para se exceder em tempos de crise, tornando também viral – e pandémica, no sentido etimológico do termo – a sua criatividade, generosidade, capacidade criativa e de entreajuda, reinventando processos, relações, formas de convívio e de solidariedade.

Tendo eu vivido a telescola e, anos mais tarde, as aulas televisionadas do então chamado ano propedêutico, em contextos politicamente distintos, mas indutores de uma mais vasta abrangência da população a escolarizar, tal situação não tinha por base motivos de restrição fundamentados na defesa da saúde pública. Nesses dois momentos, com estruturas e motivações diferentes, a tecnologia disponível era mesmo a TV. Volvidos cerca de 50 anos, desta feita já com recurso ao digital, ainda se encontram franjas de população que somente têm possibilidade de aceder à educação por este meio – nos casos mais extremos a Televisão Digital Terrestre –, que revelam algumas das fragilidades de que o nosso país, em meio século, ainda não se conseguiu libertar. De qualquer modo, e sendo verdade que as tecnologias influenciam o modo como se comunica e constrói conhecimento nesta interação, também influenciam e são influenciadas pelas mudanças que ocorrem nas relações e práticas sociais que, por sua vez, reconfiguram não só a utilização como o significado que lhes atribuímos. Como em qualquer contexto social, o que ora vivemos de afastamento faz emergir um conjunto complexo, dinâmico e até imprevisível de relações que, quase de modo biológico, se criam, evoluem ao longo do tempo, replicam-se, reproduzem-se, separam-se e tornam-se independentes, sobrevivem ou desaparecem, à medida que o tempo marcado pelo calendário vai passando, associado ao que acontece “fora do confinamento”. Somos uma espécie de “prisioneiros livres” no recolhimento de “livres sitiados” da responsabilidade social de honrar e proteger a vida – a nossa e a dos outros – recorrendo exatamente a tecnologias que, estando a ser usadas em modo de sobrevivência, impulsionarão mudanças num futuro condenado a ser presente.

 

 

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